fisiopatia

Filosofia da fisioterapia

Acupuntura – A reação

Caros(as) colegas, boa tarde:

Aqueles que estão acompanhando os desdobramentos da decisão do TRF1 à respeito da acupuntura devem ter tido acesso às notas da SOBRAFISA e do CREFITO2 sobre o tema. Decisão anterior do STJ já reconhecia o direito à prática de acupuntura como terapêutica complementar aos fisioterapeutas. Reproduzo abaixo as notas citadas, para conhecimento dos colegas (em seguida, teço alguns comentários à respeito):

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Nota de esclarecimento da SOBRAFISA sobre a decisão do TRF 1ª Região
Publicado/Atualizado em 2/4/2012 10:21:00

SOBRAFISA DECLARA:

“A ACUPUNTURA É MULTIPROFISSIONAL E NÃO EXCLUSIVA DE MÉDICOS”.

“Acupuntura pode ser feita pelo Fisioterapeuta”

A SOBRAFISA – Sociedade Brasileira de Fisioterapeutas Acupuntura.

ESCLARECE aos seus associados e população:

O Conselho Gestor da SOBRAFISA reunido durante as atividades do IV Congresso Brasileiro de Acupuntura aberto dia 30 de março e transcorrendo com sucesso absoluto em Ribeirão Preto, após consulta a vários Juristas sobre o assunto: “acupuntura quem pode praticar” e a inúmeras sentenças favoráveis já prolatadas legitimando o Fisioterapeuta a essa prática milenar, resolve a bem da verdade e no sentido de tranquilizar seus Associados, aos Fisioterapeutas em geral e a Sociedade que se beneficia dessa Assistência e do Projeto “ACUPUNTURA SOLIDÁRIA”

Que a decisão do TRF da 1ª região não se sobrepõe a decisão do STJ anteriormente TFR que já em 1987 como última instancia decidiu pela legalidade do FISIOTERAPEUTA praticar a ACUPUNTURA. Essa conquista do CREFITO 2 se estende a todo Brasil, e a conclusão obvia a que se chega é:

“ACUPUNTURA PODE SER EXERCIDA PELO FISIOTERAPEUTA. É LEGAL! É DIREITO ASSEGURADO!”

SOBRAFISA reafirma: O exercício da Acupuntura pelo Fisioterapeuta já esta garantido desde 1987, pois o julgamento que foi divulgado essa semana pela mídia, não tem força jurídica para anular decisões do Supremo Tribunal Federal, pois este é instância jurídica superior em relação ao julgamento divulgado.

Solicitamos a impressa desfazer esse equívoco, a bem da verdade, por ter acarretado prejuízos aos profissionais estabelecidos, mas principalmente a sociedade e aos pacientes que se inquietam e se sentem inseguros diante das falsidades e da inconstitucionalidade da sentença ora divulgada de forma leviana e irresponsável.

Portanto: “A ACUPUNTURA É MULTIPROFISSIONAL E NÃO EXCLUSIVA DE MÉDICOS”.

Veja nota no site da SOBRAFISA outras sentenças já prolatadas

www.sobrafisa.org.br

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Nota do Crefito-2 sobre a decisão do TRF1 em relação ao exercício da Acupuntura

A Acupuntura não é atividade exclusiva da medicina, uma vez que o fisioterapeuta tem esse direito líquido e certo legitimado e adquirido desde 1987 por Acórdão do Colendo Tribunal Superior de última instância.

O Egrégio Conselho Federal – COFFITO expediu nota sobre a decisão do TRF em relação ao exercício da acupuntura, onde, segundo consta, teria a 7ª. Turma do Egrégio Tribunal Regional Federal da 1ª. Região expressado o entendimento que Acupuntura é atividade exclusiva da medicina, o que depende ainda de publicação do Acórdão para se avaliar o real conteúdo do que foi decidido e tomar as medidas judiciais cabíveis.

Contudo, complementando a nota do Egrégio Conselho Federal-COFFITO, cumpre-nos informar que o único Conselho Profissional que possui v. Acórdão de última Instância é o CREFITO-2, desde 1987, com trânsito em julgado, extensivo aos Fisioterapeutas de todo o Brasil e ao Sistema COFFITO/CREFITOs, pois, a 1ª. Turma do Colendo TRIBUNAL FEDERAL DE RECURSOS, atual SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA – STJ., firmou jurisprudência que o FISIOTERAPEUTA está legitimado ao exercício da Acupuntura, como atividade complementar, e com direito líquido e certo, se possuidor de título fornecido por entidades de reconhecida idoneidade científica em acupuntura ou por universidade, segundo os princípios inseridos em Resolução do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional.

Assim, o resultado obtido em Corte Regional Federal não se sobrepõe a Acórdão emanado por um Colendo TRIBUNAL SUPERIOR, órgão de última Instância judicial, assegurando ao profissional Fisioterapeuta o exercício da Acupuntura e reconhecendo os atos normativos do Egrégio Conselho Federal – COFFITO.

Portanto, não deve o FISIOTERAPEUTA intimidar-se e continuar exercendo a Acupuntura visto que este direito lhe foi assegurado pelo Colendo TRIBUNAL FEDERAL DE RECURSOS, atual SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA – STJ.
Atenciosamente,

Dra. REGINA MARIA DE FIGUEIRÔA
PRESIDENTE

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Como eu havia citado no post anterior, é claro que a questão ainda se encontra em aberto, e saber que já existe jurisprudência favorável aos fisioterapeutas é muito alentador. Na verdade, considerando o ano da decisão em que nossas instituições estão se apoiando para a nossa defesa  (1987) nota-se que a batalha jurídica é bem antiga! Isso decorre, como eu também havia dito, da falta de uma lei específica sobre o tema na câmara e no senado, protegendo e garantindo a acupuntura como uma prática tradicional, aberta e multidsiciplinar, atendidos os requisitos de formação.

Esta lei é urgente e garantiria a segurança jurídica para profissionais e usuários da acupuntura, contra interesses excusos como os que levaram à contestação do direito moralmente inalienável dos fisioterapeutas, considerando que somos a categoria de nível superior pioneira no uso da acupuntura no Brasil.

É claro também que houve, no mínimo, manipulação da imprensa para divulgar precocemente e sem o devido cuidado na apuração dos fatos uma decisão que é apenas mais um nó neste novelo.

O aumento das ações de contestação de determinados segmentos médicos às práticas fisioterapêuticas mostra que estamos longe de um verdadeiro espírito de cooperação na área de saúde. Infelizmente, interesses mercantis têm se sobreposto à idéia de colocar as diversas abordagens terapêuticas à serviço da saúde das pessoas.

Eu me refiro a “determinados segmentos médicos” porque acho importante deixar claro que acredito fortemente que muitos, senão a maioria dos médicos realmente engajados com a saúde das pessoas, deseja uma área de saúde harmônica e não-hierarquizada, onde o trabalho e as responsabilidades sejam divididos com o propósito de melhorar as condições de vida dos indivíduos, sem guerras inúteis.

E não podemos nos esquecer que a sanha corporativista não é exclusividade médica. Até mesmo nós, fisioterapeutas, nos envolvemos em discussões que podem ser consideradas corporativistas para outras categorias (a questão da quiropraxia, por exemplo).

Aonde quero chegar? Bem, em algumas conclusões:

– Em primeiro lugar, a tentativa de qualquer classe profissional de monopolizar a acupuntura é errada. Historicamente, ela é uma disciplina autônoma;

– A “guerra da saúde” vai continuar. Ela tem origens profundas, insere-se não apenas em nossa história de emancipação mas também no contexto sócio-econômico atual. A verdade é que tem muita gente fazendo muita coisa e o espaço está ficando pequeno para todo mundo…

– A solução que algumas pessoas têm encontrado para este dilema é “atacar e destruir”, cerceando as atividades alheias e tentando obter monopólio ou controle sobre determinadas práticas. Não é preciso filosofar muito para perceber que, com isso, nem eles conseguirão o espaço que perderam (muito mais por incompetência própria) nem ninguém, muito menos a população, sairá beneficiada;

– Temos que dominar a sanha corporativista também em nós mesmos, se quisermos de fato defender a liberdade;

– A “pacificação” da área de saúde não depende apenas de leis. Leis e juízos já existem até demais! Somos uma área com muitas intersecções. Enquanto todos nós estivermos tentando delimitar fronteiras rígidas (quem pode fazer o quê, quando, e sob as “ordens” de quem) para cada coisinha que fisios, fonos, enfermeiros, médicos e afins fazemos, não vamos chegar a lugar algum. Os limites entre as àreas surge naturalmente, pela história das profissões;

– O que é nebuloso deveria deixar de ser por quê? Será mesmo que se houvesse um grande “manual” de quem faz o quê na área de saúde seria melhor do que simplesmente dividirmos o que não é claramente delimitado pela formação? Muitos de nós desejamos este manual, por achar que assim vai ser garantido nosso campo de trabalho. O que não percebemos é que a ciência progride, as profissões evoluem e se colocamos, nós mesmos, limites que não devem ser ultrapassados, ficamos estanques. Os médicos, a profissão mais “forte” na área de saúde (do ponto de vista político-institucional, vamos deixar claro), nunca admitiriam isso, mas alguns deles querem isso para todos os outros profissionais de saúde…

O post já se estende demais… Hora de terminar. Gostaria apenas de conclamar os colegas a escrever para deputados, senadores, presidente e juízes, clamando por uma acupuntura multiprofissional e por uma área de saúde sem hierarquias.  Afinal, o futuro continua em construção. Para onde queremos seguir?

Um abraço e boa sorte para todos nós.

O emblemático caso da Acupuntura

Caros(as) Colegas, boa tarde:

Talvez a maioria já esteja sabendo da decisão do TRF da 1ª região que determinou que a prática da acupuntura é exclusividade médica e vedada a outros profissionais de saúde, sobre o estapafúrdio argumento de que “acupuntura trata doenças” e que “o diagnóstico e tratamento de doenças no Brasil é feito apenas por médicos”. A imprensa tem divulgado o fato, de maneira geral apenas ouvindo o lado médico da história, sem contrapor a opinião dos demais conselhos de saúde. Cito alguns links de internet onde a notícia foi divulgada:

http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1068896-acupuntura-agora-so-podera-ser-feita-exclusivamente-por-medicos.shtml

http://exame.abril.com.br/economia/brasil/saude/noticias/acupuntura-somente-podera-ser-exercida-por-medicos-4

Em seu site, o COFFITO publicou a seguinte nota de esclarecimento aos profissionais fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais:

Nota do COFFITO sobre a decisão do TRF1 em relação ao exercício da Acupuntura
Publicado/Atualizado em 29/3/2012 12:37:46

O Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional – COFFITO, esclarece que, o julgamento realizado no Tribunal Regional Federal da 1ª Região – TRF1, ocorrido no último dia 27/03/2012, não há de produzir efeitos, enquanto não houver sido publicado o respectivo Acórdão, cujo conteúdo será examinado pormenorizadamente pela sua Procuradoria Jurídica, em conjunto com todas as Procuradorias Jurídicas dos Conselhos Regionais de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, a fim de que possam ser adotadas todas as medidas cabíveis para reverter à situação anunciada de maneira precipitada pela Imprensa Brasileira, relativamente à prática da Acupuntura por profissionais Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais.
Salienta-se, outrossim, que, em matéria de interpretação de Leis Federais e em matéria de cunho Constitucional, os órgãos competentes para a última palavra são: Superior Tribunal de Justiça – STJ e Supremo Tribunal Federal – STF, razão pela qual a atual situação dos profissionais que exercem a Acupuntura, não há de sofrer qualquer alteração enquanto não esgotadas todas as instâncias recursais e judiciais que serão prontamente utilizadas pelo Sistema COFFITO/CREFITOs, para fazer valer o legítimo direito de seus profissionais.
Roberto Mattar Cepeda
Presidente

Obviamente, a questão permanece em aberto, até porque não foram esgotados os recursos jurídicos para apelação dos demais conselhos de saúde (nada está decidido até que o STJ e o STF decidam terminantemente). Além disso, embora nossos meritíssimos juízos tenham uma imensa parcela de culpa nesta decisão baseada em vento e que prejudica não apenas profissionais formados, com muito estudo e muita perícia, para diagnosticar e tratar dentro de seus campos de conhecimento em saúde, cabe ressalvar que a maior de todas as culpas deve ser creditada à inércia e leniência crônicas do nosso legislativo, que discute indefinidamente sem nunca decidir, deixando milhares de profissionais e usuários na mais absoluta insegurança jurídica (já devia haver uma legislação garantindo a multidisciplinaridade da acupuntura).

Não há nenhum argumento científico, ético, legal ou histórico para definir a acupuntura como especialidade médica. Talvez o que eu vou citar a seguir seja do conhecimento de todos os colegas mas ainda assim acho importantíssimo elencar estes argumentos. Fiquem à vontade para divulgá-los, afixá-los em seus locais de trabalho, usar para fazer campanha ou como acharem melhor.

Argumentos contra a idéia da acupuntura como especialidade médica:

1) A acupuntura foi criada e é usada na china há mais de cinco mil anos, país onde, como se sabe, a medicina se desenvolveu de forma bastante distinta da medicina ocidental, que por sua vez remonta à Grécia de dois mil anos atrás. A acupuntura era praticada muito antes de Hipócrates, e isso se cairmos na falácia de acreditar que Hipócrates foi o ” pai da medicina” e não de todas as ciências de saúde em geral, já que, como já discuti aqui no blog anteriormente, o que se chamava medicina à época englobava o que hoje são todas as áreas de saúde (fisio, psico, farmácia, odontologia, medicina, etc) e se assentava em conhecimentos que, apesar de serem os precursores do pensamento científico moderno, nada tinham de científicos em suas conclusões e pouco ou nada guardavam de semelhança com as ciências de saúde baseada em evidências que conhecemos hoje, entre as quais inclui-se a própria (mas não única) medicina;

2) O conselho de fisioterapia reconheceu a acupuntura como prática complementar às suas abordagens dez anos antes que a medicina, numa época em que médicos denegriam a acupuntura como misticismo e charlatanismo. Por quê, mesmo tendo aceitado a acupuntura apenas depois de outra categoria profissional, os médicos hoje se crêem os únicos capazes de utilizá-la?

3) Dizer que “somente médicos podem diagnosticar e tratar doenças” é o pior argumento de todos. Dentistas também diagnosticam e  tratam doenças (da boca), fisioterapeutas diagnosticam e tratam doenças (dos movimentos), psicólogos diagnosticam e tratam doenças (emocionais)… a lista é enorme. “Diagnosticar e tratar doenças” é o que fazemos todos na área de saúde. Com especifidades, é claro, cada um a seu modo próprio e dentro de determinados campos tradicionais de atuação, mas, ainda assim, intrinsecamente trata-se de diagnosticar e tratar;

4) Dizer, como afirma o conselho de medicina, que é necessário “um profundo conhecimento de anatomia, fisiologia e fisiopatologia” para se aplicar as agulhas de acupuntura pois elas são inseridas em locais muitas vezes críticos do corpo humano, é verdade, claro. O que não é verdade é que só médicos tenham esse conhecimento! Como eles podem afirmar isso? Como é possível que eles afirmem e, só por estarem dizendo, isso se torne verdade? Todas as demais profissões de saúde estudam anatomia, fisiologia, patologia, fisiopatologia… É nosso “núcleo comum”, a natureza intrinsecamente correlacionada de nossos saberes, que faz com que, inclusive, sejamos classificados, todos nós, como “área de saúde”. Estas disciplinas estão em nossos currículos nas universidades tanto quanto “cálculo” está no de todo engenheiro, seja ele da área cívil ou mecânica. Qual é a lógica em dizer que só médicos detêm esse conhecimento? Os senhores juízes que proferiram a sentença favorável aos médicos não conhecem e não se dignaram a consultar os currículos mínimos das demais profissões de saúde fixados pelo MEC e conselhos profissionais?

5) Se ainda não há uma lei específica oriunda da Câmara e do Senado disciplinando quem pode exercer a acupuntura no país, os juízes basearam-se em que preceito jurídico para negá-la aos profissionais de saúde que já a exercem? Isso fere frontalmente o principio constitucional de que “XIII – é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”. Afinal, a lei ainda não estabelece nenhuma qualificação própria para a acupuntura, apenas os conselhos federais de saúde legislaram por si mesmos a esse respeito. Por quê a resolução do CFM tem mais “direito” ou é mais “privilegiada” que a do COFFITO ou do CFF, por exemplo? Nesta matéria, onde não há normativa, todos estão em pé de igualdade.

A lista de argumentos poderia prosseguir. Paro por aqui. Os colegas, muitos dos quais militam muito mais que eu em acupuntura (eu só conheço auriculoterapia e Koryopuntura), podem com certeza estender a lista de argumentos.

No fundo, a idéia de que a acupuntura deva ser restrita a médicos é profundamente fascista, tanto quanto as idéias malucas do “ato médico”. Elas negam aos demais profissionais de saúde nosso conhecimento, como se nossa formação univeritária não valesse de nada, exceto para acatarmos ordens dos médicos. Ora, se era para ser auxiliar de alguém eu teria escolhido uma profissão técnica, não uma faculdade!

O Brasil é um país muito injusto inúmeras vezes. Gosto deste país e luto por ele, mas me sinto deprimido quando pessoas e instituições pensam, agem e se comportam de forma bizantina, entendendo e defendendo um mundo reducionista, tosco, hierarquista, onde “manda quem pode e obedece quem tem juízo”, onde o que vale é força econômica, influência política, conchavos e o direito não é igual para todos. Às vezes dá vontade de desistir, mandar tudo às favas, porque parece não valer a pena continuar lutando pelo que é bom e correto quando ninguém parece ligar.

Mas quando a gente desiste eles ganham. E como eu sou do tipo muito, mas muito chato mesmo, não pretendo dar uma vitória fácil pra ninguém.

E se um dia for mais interessante para mim vender cachorro-quente que ser fisioterapeuta, vou vender cachorro-quente! Jamais seguirei ordens de nenhum médico.

A fisioterapia é uma profissão muito nobre e valiosa para que se admita que ela se torne um apêndice da medicina. O dia em que os médicos tiverem controle absoluto sobre a fisioterapia, tal como alguns querem, não será mais fisioterapia mas outra coisa que eles terão nas mãos. A verdadeira fisioterapia, aquela que faz a diferença na saúde das pessoas, infelizmente terá morrido.

Não, eu não acredito que isso possa vir a acontecer, mas também não posso deixar de pensar que seja possível, se nós permitirmos que as coisas caminhem de certa maneira…

Eis o meu manifesto. Abraços a todos os colegas (e, sim, eu acredito que vale a pena lutar).

Projeto de lei – Piso salarial

Caros(as) Colegas, boa tarde!

Tenho tido dificuldade em postar no blog nestas últimas semanas, mas prometo retornar em breve. Faço um parêntesis em meu recesso por um motivo que eu considero muito importante.

Está tramitando na câmara federal um projeto de lei sobre o piso salarial dos fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, fixando-o em R$4.650,00. Como piso, é um grande avanço, ainda que não seja, é claro, a remuneração dos sonhos de ninguém e ainda esteja aquém do que fisios e TOs merecem por seus anos de estudos continuados, pelas responsabilidades que assumimos e dada a complexidade das questões de saúde com as quais lidamos. Mesmo assim, como valor de base, é um grande incentivo à não deterioração dos salários pelo mercado de trabalho em geral e à prática do sub-empregamento com pagamento de salários aviltantes que, se deve ser enfrentada também pelos próprios profissionais, na recusa tácita de tais condições de trabalho, não deixa de merecer, por certo, um mecanismo legal de proteção.

Os links à seguir me foram enviados pela newsletter do site “fisioconcursos”. O primeiro dá acesso ao projeto de lei e à tramitação em si e o segundo a um abaixo-assinado eletrônico a favor do projeto. Por favor, acessem! Participem! É uma luta que temos que lutar, vocês não acham?

Abraços a todos. Ai vão os links:

http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=448332

http://euconcordo.com/pisofisioja

 

 

 

 

 

 

 

Ato médico

Bom dia a todos.

Implicita ou explicitamente, este blog tem tratado da controversa questão da “lei do ato médico” desde seu inicio. Dados os recentes desdobramentos de sua tramitação, acredito que agora seja um bom momento para abordá-la frontalmente.

A “Lei do ato médico”, agora tramitando nas comissões do senado sob a nomenclatura “SCD nº. 268 de 2002”, ou seja, a tramitação de um substitutivo da câmara dos deputados ao PLS original, e tendo sido aprovada preliminarmente pela Comissão de Constituição e Justiça do senado, define as competências médicas privativas. Para a maioria de nós de outras áreas de saúde, isso significa restrição aos nossos atos terapêuticos corriqueiros e reserva de mercado médico de procedimentos que, não apenas hoje mas nos últimos dez, vinte ou trinta anos, têm sido compartilhados com outras profissões (a lei, conforme está tramitando atualmente,SCD268, está anexada aqui para consulta dos colegas).

Em principio o texto não deveria nos preocupar. Com a força de pressão de nossos conselhos profissionais e dos próprios profissionais de saúde muita coisa foi modificada no texto original, que era realmente uma excrescência, uma peça de fascismo médico absurda. O texto atual resguarda o diagnóstico cinético-funcional e outros diagnósticos não nosológicos da competência exclusiva dos médicos. Também faz diversas menções ao fato de que a lei deve resguardar as competências expressas das profissões de fisioterapeuta, enfermeiro, fonoaudiólogo, psicólogo, etc. Mas (e é um grande “mas”) atenta ainda contra a autonomia fisioterapêutica ao determinar que a coordenação da ventilação mecânica é competência exclusiva dos médicos e que a prescrição de órteses e próteses de uso permanente também (as de uso provisório não seriam).

Não concordo com essas coisas e acho que não deveriam passar no senado. A lei ainda tramita e devemos continuar lutando para que tais limitações não prevaleçam. Além disso, o texto traz ainda outros pontos obscuros que, dependendo da interpretação, podem prejudicar as demais profissões de saúde, como por exemplo o importante Artigo 4º, parágrafo I, que diz que: “Art. 4º São atividades privativas do médico: I – formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica”;

Ora, com certeza após o “prescrição terapêutica” deveria vir escrita a palavra “médica”, uma vez que a prescrição terapêutica de outros profissionais é competência deles. O texto, no final, fala novamente em “resguardadas as competências dos profissionais… etc”, mas nós sabemos como os médicos que deram origem à idéia do ato médico pensam e o que eles querem. Nòs sabemos que querem (e vão) interpretar tal parágrafo como “é exclusividade médica prescrever toda a terapêutica relacionada a um determinado diagnóstico nosológico”. Numa situação de litigio legal acerca desta interpretação ( e vai haver litigio legal, com certeza), um juiz progressista pode entender que os médicos não podem prescrever para fisioterapeutas, mas outro mais reacionário pode entender o que é lugar-comum: que é o médico o único quem entende tudo de doença e que ele, e só ele, pode prescrever tudo para todo mundo na área de saúde (a ideologia do “Deus” no Olimpo…). A letra da lei cria insegurança jurídica para os demais profissionais de saúde.

Mas, independente destes questionamentos, acredito que a lei vai passar. Não digo isso como uma profecia alarmista, nem como teoria da conspiração, nada disso. Espero e creio que nossa luta ainda consiga aplainar o texto e fazê-lo vigorar sem essas dubiedades de interpretação que tanto podem nos prejudicar.

Um texto que nós sabemos que nunca foi necessário, pois quem é da área de saúde sabe o poder institucional e de pressão que a profissão médica exerce sobre todas as demais profissões de saúde desde sempre. A idéia de uma lei do ato médico dá a impressão de que eles é que estão coagidos pela expansão das demais profissões, perdendo terreno, o que nós sabemos que não é verdade. O terreno deles sempre esteve resguardado e a luta deste segmento que apoia o ato médico (não são todos os médicos, mas são expressivos) é por supremacia na área, não por garantia de direitos que nunca foram contestados. E, nesse sentido, de certo modo, essa classe médica que deu origem ao texto original já perdeu, porque o texto atual de muitos modos exclui a supremacia médica. Mas não enterra seu fantasma de uma vez por todas, e é ai que ele ainda falha e pode comprometer todo o futuro da área de saúde, em detrimento, principalmente, dos pacientes, muito mais que dos profissionais.

Mas penso que a lei será aprovada, simplesmente porque os deputados e senadores não podem ignorar o pleito de uma classe. Numa sociedade democrática, eles têm que conciliar os anseios de uma categoria com as demais e a sociedade (este é o ponto aqui: se eles serão capazes de fazer isso adequadamente).

A questão, a grande questão, é: se, ao final de todas as discussões, a lei do ato médico passar ainda com algumas dubiedades de interpretação ou considerações muito restritivas aos demais profissionais de saúde, o que nós, profissionais destas áreas, iremos fazer?

Meu entendimento desta questão é claro. Os médicos não podem ter supremacia na área de saúde, e isso não apenas por subtrair direitos a nós, profissionais de outras áreas, mas por tirar direitos dos pacientes!

Simplesmente, é impossível que apenas médicos dêem conta bem e com qualidade de todos os diagnósticos possíveis (cinesiológico, psicológico, fonoaudiológico, etc), bem como é impossível que induzam, acompanhem, avaliem, reavaliem, estejam junto, coordenem, mudem, todas as terapêuticas existentes.

O que o segmento médico que apóia o ato médico em sua versão “dura” quer é mandar em tudo, não fazer tudo, pois eles sabem que isso não é possível. Eles querem que haja um médico responsável assinando papéis e ganhando sem fazer nada em cada clínica de fisioterapia do país. Querem que nenhum paciente possa ser atendido por outro profissional por sua própria vontade mas apenas por indicação deles (ou seja, querem tirar a autonomia das pessoas) e querem poder determinar o que eles desejam delegar aos outros profissionais na área de saúde e o que querem fazer com as próprias mãos. É claro que muitos médicos percebem o absurdo disso e são contra tais coisas, mas não é com os médicos progressistas e de bom-senso que nós temos que nos preocupar caso a lei venha a ser invocada para restringir nossos direitos e os direitos dos pacientes.

Sendo assim, se a lei for aprovada e começar a ser usada para cercear atividades tradicionais de outras profissões, cabe a nós profissionais de saúde continuar lutando para que valha uma interpretação liberal e progressista dela e não sua versão restritiva. Toda a lei, não importa qual, sempre dá margem a interpretações conflitantes, sempre tem aspectos subjetivos, por mais que tente ser clara e precisa. Para isso existe o judiciário, para dirimir conflitos de interpretação.

As partes do texto que falam em: “resguardadas as profissões de…”, etc, devem ser interpretadas por nós, profissionais de saúde, ao pé da letra! “Isso é tradicionalmente da minha área e, portanto, está resguardado pela lei…”.

Ou seja: a aprovação da lei do ato médico é apenas o começo da história.

Devemos lembrar que as leis são feitas para as pessoas e não as pessoas para as leis. Seguir a lei cegamente, sem avaliar os casos específicos, gera injustiças, não justiça. E quando uma lei limita um direito humano fundamental, como o da auto-determinação, é a lei que deve mudar, não o principio. Ou vocês acatariam uma lei que dissesse que homens e mulheres devem ser tratados desigualmente porque um é inferior ao outro? Ou que negasse direitos a determinada etnia? Evoluir uma sociedade não é criar leis, muito menos ser um bom cidadão significa seguir a lei sem questionar.

Nós devemos nos preparar, se for o caso, para ir aos tribunais. E às ruas. Devemos lutar para eleger aqueles que nos representem e às nossas demandas por liberdade e qualidade na área de saúde, e para não eleger os representantes do atraso. E temos que, já, agora, escrever aos senadores para que atentem para a liberdade das demais profissões de saúde ao votar a lei do ato médico. Principalmente, não devemos nos conformar.

O que é errado permanece errado, mesmo que se torne lei.

P.S. Num próximo Post, prentendo listar os deputados e senadores que, desde os primórdios do PLS 268 têm tentado exclusivamente privilegiar os médicos, como o Senador Benício Sampaio, por exemplo, ou o senador Geraldo Althoff, pai do projeto do ato médico original, ambos médicos. Para que possamos reagir a essas pessoas nominalmente.

Sabem o que poderíamos fazer? Poderíamos mostrar a esses senhores, em futuros pleitos aos quais se candidatem, que fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, enfermeiros, etc, também votam e têm amigos e famílias numerosas que votam também. Devíamos baní-los do serviço público, através do voto, para sempre.

A propaganda é a alma do negócio

Caros colegas, uma pergunta: como vocês se vendem para a sociedade?

Não, não me refiro à forma como fazem publicidade de seus consultórios, clínicas ou trabalho liberal. Falo da forma como vendem o “nosso” peixe, a enorme importãncia, relevância e dignidade da profissão de fisioterapeuta.

O tema deste post me ocorreu na segunda-feira desta semana, durante o expediente na clínica em que trabalho no serviço público municipal, um dia apelidado carinhosamente de “segunda-feira do inferno”. Talvez alguns colegas saibam, mas não sou das pessoas mais organizadas. Graças a Deus, não preciso ser (todo o tempo) pois tenho pessoas como nossa excelente secretária e recepcionista para me ajudar com isso. Estava conversando com ela sobre a dificuldade em ajustar os horários de pacientes de forma a não sobrepor dois ou três casos de trauma no mesmo horário. Eu disse que nosso começo de ano estava ficando “quente” ou “impossível” (brincando um pouco…) e ela retrucou que ia piorar e me mostrou uma guia para tratamento de fratura de joelho…

Quase todo começo de ano é igual. Os ferimentos, traumas, lesões e, principalmente, acidentes automobilísticos ocorridos durante as festas de final de ano nos trazem uma enxurrada de novos pacientes. Casos difíceis, como os colegas que tratam com traumatologia bem sabem. É a sazonalidade própria da fisioterapia que, como toda ciência de saúde, tem seus períodos mais difíceis e outros mais fáceis (como o inverno para os pediatras, por exemplo, incluindo-se ai, é claro, pediatras médicos e pediatras fisioterapeutas).

Nas segundas, quartas e sextas não há, atualmente, nenhum horário em que não tenhamos, nossa equipe de cinco profissionais de fisioterapia geral e um fisioterapeuta acupunturista, pelo menos um ou dois casos envolvendo fraturas ou lesões traumáticas. Uma sequela tardia de ombro congelado, em particular, mobiliza a maior parte de nós: uns estabilizando o paciente enquanto outro tenta romper as aderências articulares. Um espetáculo às vezes um pouco agressivo para os pobres pacientes com dores que involuntariamente assistem à cena.

Mas por quê estou contando estas histórias? Para perguntar aos colegas como vendem sua profissão. É que, honestamente, eu já estou um pouco cansado deste paradigma do fisioterapeuta que trabalha com postura, que cuida “das costas”, etc. Nada contra, é óbvio, o importantísimo trabalho dos colegas que atuam em posturologia. A questão não é essa. Mas, às vezes, parece que nós fisioterapeutas não temos imaginação para explicar para as pessoas e divulgar as coisas realmente “barra pesadas” que fazemos no dia-a-dia e o quanto elas impactam na saúde das pessoas. A postura e a dor nas costas se tornaram nossos paradigmas de atenção, às vezes, a ortopedia corriqueira (tendinites, bursites…), sendo que temos tantas áreas de atuação, tanta abrangência de campo…

Sei que alguns colegas devem estar pensando que “a valorização da fisio melhorou muito” e que as pessoas já sabem mais à respeito de sua importância e pedem este tipo de atenção, que sabem que se quebrarem algum osso vão precisar de fisioterapia etc. Novamente, não é bem disso que estou falando, mas de imagem mesmo. Marca, signo e, melhor ainda, simbolismo. Tendo a fisioterapia a importância que tem na área de saúde, por que não conseguimos traduzí-la de uma forma que ela apareça tão emblemática quanto a medicina?

“O médico salva vidas!”. Esta mensagem é tão martelada e está tão subliminarmente ligada aos médicos que é quase um subtítulo: “Aquela pessoa é um (uma) médico(a), que salva vidas”. Ora, nós sabemos que não é bem assim! Estamos falando de quê? Socorristas? Emergentistas? Profissionais de UTI? Bem, nestas áreas e em algumas outras, onde o profissional recebe os pacientes em estado crítico, sim, médicos salvam vidas, mas, em geral, não são só eles também, não é verdade? Com o avanço da técnica e a divisão do trabalho especializado em saúde, qualquer equipe de PS ou emergência conta (e deve contar) com enfermeiros, fisioterapeutas, radiologistas… A pessoa que opera um vetilador mecânico numa UTI tem tanta responsabilidade em salvar uma vida quanto quem intuba e extuba o paciente, e essa pessoa, hoje em dia, é um fisioterapeuta, certo? Então por que apenas o médico “salva vidas”?

Considerada em seu contexto global, a medicina é muito mais sobre aliviar o sofrimento e cuidar de problemas de saúde que propriamente sobre salvar vidas. A maioria das áreas (orotopedia, reumatologia, dermatologia, ginecologia e obstetrícia, geriatria, enfim…) não lida com o paciente crítico no dia-a-dia. Muitos fisioterapeutas lidam com mais pacientes críticos em um dia que muitos médicos em uma vida inteira de profissão. E isso, claro, não desmerece de modo algum o profissional médico que atua em áreas diversas da atenção ao paciente crítico, pois todas as áreas são importantes. Mas ainda que ele seja especialista em uma área ambulatorial, sua aura de respeitabilidade e importância será maior que a de qualquer fisioterapeuta. Por quê?

Bem, dois fatores, a meu ver: o primeiro, e contra o qual nunca poderemos fazer nada, é que fisioterapeutas são, ao mesmo tempo, falando a “grosso modo”, o profissional e o remédio. Explico: nós avaliamos, diagnosticamos e induzimos a terapia, tudo ao mesmo tempo. O paciente não sai do nosso consultório, vai comprar um remédio, se trata em casa e volta depois de um tempo para vermos se melhorou. Ele precisa vir até nós duas, três vezes por semana e até mesmo todos os dias, durante semanas, meses ou até anos. Fica, literalmente, em “nossas mãos”. Ou seja: se torna próximo. Não necessariamente íntimo, é claro, mas próximo. E, com isso, lá se vai a aura de “sabedoria Olímpica” e “infalibilidade”, que muitos médicos têm. Se isso é ruim? Não, de modo algum! é um dos motivos porque fisioterapia é uma prática tão rica e dinâmica e uma profissão apaixonante. Só que, é preciso admitir, essa característica tem suas desvantagens também. Nunca conseguiremos ser tão “Deuses” quanto os médicos, simplesmente pelo fato de estarmos próximos demais de nossos pacientes. Paciência, é um fato da vida e da psiquê humana…

Mas sobre o segundo fator nós temos total controle! O fator “peso” da profissão. O que quero dizer com isso?

Quero dizer o seguinte: nós em traumatologia, por vezes, atendemos pessoas que nos chegam em estado deplorável, vítimas de traumas gravíssimos, restritas à cadeiras de rodas, politraumatizadas, incapacitadas não só para o trabalho como para a vida. Em meses, nós as  devolvemos à vida, em diferentes graus, é claro, de comprometimento sequelar, mas com certeza melhores do que chegaram e, às vezes muito melhores! Em neuro, incapacidades que muitas vezes significam a perda total de autonomia ou capacidade para o trabalho e a vida podem ser parcial ou totalmente revertidas ou manejadas. Em PS, enfermarias, UTIs, fisioterapeutas concorrem para a preservação da vida dos pacientes, junto à equipes com várias outras formações profissionais. Isso sem falar em tudo o que fazemos e que tem efeito preventivo de preservação e ampliação da expectativa de vida e que, por dificuldades de mensuração dos anos a mais de vida ganhos, passam despercebidos em relação à sua importância: fisioterapeutas da área cardiovascular prolongam em quantos anos a vida de um cardiopata recém-revascularizado após um programa bem executado de reabilitação? Colegas que trabalham com grupos de atenção básica previnem gravíssimos episódios de AVC ou infarto em portadores de Hipertensão, Diabetes ou dislipidemias, mas quem sabe disso? Não aparece nas estatísticas quando tudo dá certo, só quando dá errado…

Apesar de tudo isso e muito mais que não deu para citar aqui, por que nossos folhetinhos explicativos, nossa propaganda institucional, nossas palestras sobre saúde, quase sempre recaem em “corrigir as costas”? (repito, não tenho nada contra a posturologia, que evita e corrige problemas muito sérios também. O meu argumento aqui é contra o massacre de uma única “imagem” profissional nas mentes da população).

Pessoal, a fisioterapia hoje em dia faz muitas coisas, inclusive, salva vidas, preserva vidas, reverte as consequências de traumas e lesões, desacelera a progressão de doenças gravíssimas. Vamos falar sobre isso! Vamos inculcar isso na cabeça das pessoas! Por quê é disso que nós somos feitos: da luta diária pela preservação da vida e da dignidade humanas.

Um abraço a todos:

Em tempo: a campanha do crefito que mostra as mãos de um fisio ajudando um menininho a posicionar adequadamente uma mochila é, pelos argumentos aqui apresentados, reducionista, mas é um bom começo porque há até bem pouco tempo nós não tínhamos propaganda na TV. Já era hora de começarmos a ter mesmo! E quem sabe a próxima campanha não mostre um fisioterapeuta operando um ventilador mecânico ou recuperando uma fratura complexa?

Transdisciplinaridade

Caros, bom dia.

Acho que está na hora de tocar numa ferida.

Este post é sobre “interdisciplinaridade”, “multidisciplinaridade”, “transdisciplinaridade” e noções congêneres. As palavras são ótimas, os conceitos lindos, mas eu, 13 anos depois de formado e de ter sido massacrado por elas todo esse tempo, ainda não sei o que querem dizer.

Mesmo tendo trabalhado para diversos empregadores e, dentro de uma mesmo empregador, em diversas unidades de saúde, e tendo ouvido em todas estas unidades, hospitalares ou ambulatoriais, que todo mundo ali trabalhava “multidisciplinarmente” e às vezes até “transdisciplinarmente”, que eu seria “parte de uma equipe”, tudo que encontrei de diferente em relação ao meu trabalho era que se perdia muito tempo em reuniões intermináveis onde se abraçava o óbvio, cada qual dizendo que iria fazer com o paciente “X” ou “Y” exatamente o que era seu dever profissional fazer, e esperando uma opinião dos demais que, se vinha, era arbitrária, pois muitas vezes de alguém que não conhecia seu escopo técnico-científico (ou seja, de outra área), uma opinião que, necessariamente, tinha que entrar por um ouvido e sair pelo outro. Ou então formavam-se grupos de atendimento (“fisio” + “fono” + “TO” + “psico”… uma raridade ver médicos nestes grupos mas às vezes acontecia) que no fim das contas tinham uma linha terapêutica, em geral psicossocial, levada a termo por uma membro da equipe e “seguida”, “acompanhada”, “complementada” ou “enriquecida” pelas visões terapêuticas dos demais (ou seja: muita gente ociosa enquanto um apenas trabalhava, muita gente ganhando pelo mesmo atendimento e pouco resultado prático mensurável em relação às queixas dos pacientes. Aliás, pessoas que amam “transdisciplinaridade” odeiam escalas e instrumentos de medida de melhora clínica. Dizem que não se pode “reduzir” um ser humano complexo à números numa escala).

Creio que os colegas já perceberam o que eu eu penso destes conceitos. Eu penso que eles são arbitrários, puros sofismas. E que servem muito mais a interesses ideológicos-políticos ou pseudo-religiosos disfarçados, do que ao bem dos pacientes propriamente.

E gostaria de deixar claro que, com isso, não quero dizer que não acredite em trabalho em equipe. Mas trabalho em equipe só pode significar, de verdade, uma coisa: múltiplas abordagens para a melhor resolução de um quadro complexo. Isso é uma fato inegável em saúde: que todos os problemas são complexos, que o próprio indivíduo tem peculiaridades que o tornam único e que a abordagem de um único profissional, em geral, é  insuficiente na resolução dos quadros. Daí não se depreende que cinco profissionais diferentes com um grupo de pacientes numa mesma sala seja mais eficaz que cada um na sua sala cuidando do paciente dentro de seu campo de atuação.

Também não significa, é claro, que profissionais de diferentes áreas não possam trocar experiências e crescer profissionalmente pelo entendimento mais global do paciente e da patologia. Este crescimento pelo diálogo encontra melhor espaço para se expressar numa conversa informal de corredores ou numa happy-hour animada que em qualquer reunião improdutiva.

Talvez os colegas achem que eu estou sendo radical. Bem, eu quis deixar claro que eu não considero estas coisas como verdades irredutíveis e inquestionáveis do trabalho terapêutico como nos vem sendo vendido (e muitos de nós se sentem desconfortáveis em questionar a “transdisciplinaridade”. Perguntados à respeito, por alguém com uma diletante voz acusatória, sentimos vergonha de dizer “eu não acho tão bom assim”, porque parece que ser crítico em relação a estes conceitos é ser velho, ultrapassado, isolacionista (talvez um pouco egoísta), um tecnicista que não tem o “pensamento holístico” e outros xingamentos dessa espécie.

Em principio, o conceito de transdisciplinaridade é ótimo. Não vou falar dele, tenho certeza que, em teoria, os colegas o conhecem. Mas me digam o que ele se torna na prática?

Vamos ouvir a opinião do médico? Ele esbanja seu tecniquês para nos dizer, veladamente, que é ele que sabe mais? O fisio e a fono vão trabalhar juntos… Ok, como? Fisios não estudam linguagem, fonos não estudam cinesiologia e terapia física. Qual é nosso ponto de encontro? E não me venham dizer que no modelo “transdisciplinar” todos devem saber um pouco de tudo sem interferir na área alheia, mas estando todos inseridos num arcabouço comum. O que isso quer dizer, afinal? “Saber um pouco de tudo?”… Isso é mesmo possível? As ciências de saúde são iguais para todos, mas as especificidades profissionais são únicas, ou não precisaríamos sentar em bancos escolares diferentes ou ter conselhos profissionais diferentes… Onde todos nós, médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, dentistas e afins, nos unimos, é em anatomia, fisiologia, patologia, cito-histologia… o básico do básico da saúde. Todos nós já falamos a mesma lingua! Que mais as pessoas querem unir? E essa história de ninguém interferir com a área dos demais, embora trabalhando juntos? Isso não parece meio contraditório? Ou bem se trabalha junto, ou cada um está na sua…

Trabalhar em equipe é primordial na área de saúde, mas trabalhar em equipe não é o mesmo que trabalhar junto num mesmo espaço ou chegar em consensos. Consensos são coisas horríveis! Para ajudar mesmo um paciente é preciso diversidade de ações, às vezes, é preciso conflito (que eu ache que o outro é insuficiente e tente fazer melhor, que o outro me ache fraco e diga que o método dele é que é o bom…). No final, o paciente vai se beneficiar de uma saudável disputa entre áreas para ver quem consegue fazê-lo avançar mais na resolução de seu quadro, muito mais do que se todos se ungirem por um consenso, quase sempre abertamente ou veladamente indicado pelo membro mais forte da equipe (leia-se: o mais bem articulado, mais político. mais cheio de tecniquês ou que todo mundo considera Deus na terra porque fez duas residências médicas). E o conflito de posições não precisa significar bagunça, muito menos que os profisssionais envolvidos não vão compartilhar informações sempre que possível. É apenas a boa e velha competitividade humana em ação. Se Russos e Americanos nunca tivessem competido, o homem jamais teria deixado a terra ou pisado na lua… O que não quer dizer que a guerra fria tenha sido boa. Mas competitividade e conflito não têm necessariamente que caminhar juntos. Podemos ser amigos e rivais. Certo?

A transdisciplinaridade, do jeito que vem sendo ideologicamente pregada, atende aos interesses corporativistas e hierarquistas médicos, porque tira a força das profissões individuais de saúde e nos coloca a todos num mesmo balaio de gatos, uniformizando-nos e permitindo que eles sejam os únicos diferentes da história. Os que pairam acima. Estou exagerando?

Talvez. Este espaço está aberto às críticas dos colegas. Não tenho a verdade, apenas minhas opiniões, que eu tento embasar em dados mas que, às vezes, são apenas sentimentos e opiniões mesmo.

Para finalizar este post, fica apenas uma sugestão, ou desafio: tentem achar dados estatísticos sobre eficácia real de abordagens transdisciplinares. Fujam dos artigos com principios, discussões filosóficas, elucubrações sobre paradigmas de complexidade e afins, e vejam se encontram números.Não sei vocês, colegas, mas a meu ver a matemática é a mais espiritual das ciências…

Grande abraço a todos:

Valor

Bom dia a todos.

No primeiro post de 2012, gostaria de falar sobre valor.

Não sou economista e, embora tenha lido um pouco e conheça alguns conceitos de Adam Smith, Keynes, Marx e outros precursores da economia moderna, de um modo na verdade utilitário, de “usuário”, por assim dizer, não vou levar esse post por um caminho de questionamento das noções de produção, lucro, força de trabalho e mais-valia, embora todos estes conceitos (e suas discussões) sejam muito importantes para o tipo de argumento que eu tenho em mente. De fato, por considerá-los importantes e, mais que isso, a essência da sociedade de produção capitalista em que vivemos, posso, de forma talvez um pouco cômoda para mim, considerar que todo mundo vive essa realidade todo o dia, uns com mais conhecimento de seus mecnismos do que outros, mas igualmente afetados por eles. A questão que quero colocar é: o valor de nossa força de trabalho, como fisioterapeutas, é alguma espécie de valor “real”? Em outras palavras: é o que merecemos ganhar.

Minha resposta é não, claro. Como acredito que seja a de todos os colegas que militam nesta profissão. Não creio que alguém esteja satisfeito com os salários pagos pelo mercado e não poderia ser diferente. O “mercado”, este conceito que todo mundo finge entender mas que no fundo é só uma entidade abstrata formada pelo uso que um coletivo de seres humanos faz de outra variedade de abstração chamada “dinheiro” dentro de um sistema consensual estranho cujas regras ganham autonomia segundo sua própria lógica interna, que é a economia ou troca de bens e serviços entre pessoas. Esses monstros mitológicos não nos pagam bem.

Aliás, não pagam bem para a saúde, a educação e a segurança. Não pagam bem para atividades voltadas ao bem-estar do homem em geral mas valorizam (e muito) atividades que geram bens materiais e/ou que maximizam o lucro empresarial e, principalmente, do sistema especulativo de se transformar dinheiro em mais dinheiro sem produzir nada, por meio de transações fechadas (grosso modo).

Vejam: não sou economista e também não sou comunista, socialista, nada disso. Acredito no capitalismo como forma econômica, não perfeita, ou ideal, mas que, até o momento, é aquela que melhor concilia os desejos psicológicos dos seres humanos por bens e serviços que possam nutrir a vida e potencializar seus prazeres com a necessidade de dividir os recursos finitos que temos. O capitalismo tem distorções e privilegia muito uns poucos em detrimento da maioria (às vezes) e às vezes favorece o enriquecimento de parasitas. Mesmo assim, ele permite autonomia, crescimento por merito, liberdade de troca segundo a potencialidade individual de cada um (o artista vende sua arte, o técnico sua técnica, etc…) ao contrário de todos os outros modelos já testados, que buscavam uma partilha supostamente justa mas que tomava todos por uma linha de base, anulando a individualidade e a criatividade em troca da igualdade.

Mas o ser humano, a meu ver, não tem o imperativo de igualdade impresso em seu genoma. Nossa meta “biológica” é maximizar nossa sobrevivência e bem-estar pessoal e de nossas famílias, não a da sociedade como um todo. O bem da sociedade vem quando os indivíduos podem ser supridos em suas necessidades biopsicossociais. O bem da sociedade é um ideal a ser buscado, lógico, mas deriva da satisfação individual. O indivíduo é a célula. Por pensar assim, não gosto de coletivismos.

Isso significa que o “mercado” e suas leis são justas em remunerar a nós, fisioterapeutas? Não, não significa. Nem que isso vá melhorar “conforme o capitalismo evolua”, segundo dizem alguns profetas da política “empresarial” que querem nos vender o peixe de que é justo eles estarem onde estão. Mas talvez o mercado não exista para ser justo e, com certeza, não é a lei da oferta e da procura que nos está prejudicando. São as pessoas. Certo?

Explico: Nós que vivemos de um serviço tão importante quanto recuperar a saúde das pessoas (o que é a base para o trabalho e o bem-estar individual e, por tabela, da sociedade) fazemos parte de um sistema caro que gera prejuízo e não lucro (no mundo, não apenas no Brasil, saúde requer financiamento. Nos EUA este financiamento é feito pelo seguro social dos trabalhadores e aqui, e em outros países, pelo governo, ou seja, pelos nossos impostos, pagos por todo mundo). A saúde, desta forma, de certo modo, assim como a segurança e a educação, está fora das leis de mercado clássicas. Saúde só dá prejuízo, ponto. É claro que há hospitais por ai que dão lucro e clínicas que dão lucro. Isso não é o macro-sistema de saúde mas o micro-sistema, a saúde enquanto negócio, que não é para todos mas para quem pode pagar por ela individualmente (porque, coletivamente, todos nós pagamos). É possível imaginar uma sociedade próspera, onde todos ganhem muito dinheiro (uma super-classe-média) e possam pagar por uma saúde de excelência? Bem, talvez na escandinávia seja assim, quem sabe… São países pequenos, populações pequenas… Bem, talvez um dia o mundo inteiro seja assim. Mas não vivemos assim, aqui, agora.

Qual é a conclusão disso? A conclusão é que a culpa de uma má gestão de saúde e má remuneração de seus profissionais é política, não econômica. Afinal, saúde não dá lucro mesmo, ela permite o lucro. E não vivemos só de mercado. O capitalismo é bom até certo ponto (se você é um empresário, tem uma clínica particular, sua clínica tem muitos pacientes e você vai bem nos negócios, que bom, certo? A maioria de nós trabalha para o mercado mas também tem seus pacientes particulares, dos quais cobra honorários condizentes, todos nós somos pequenos burgueses vendendo nossos serviços, também), mas o capital não é a única verdade e nem poderia ser. Ele supre o mundo de coisas, não de justiça. Para isso existe a política, que, entre outras funções, deve regular o mercado para que ele sirva aos interesses da sociedade (à partir do respeito ao indivíduo, principalmente. É dever da política, não do mercado, garantir que todos tenhamos as mesmas oportunidades de desenvolver ao máximo nossos potenciais).

Isso dito, qual é a moral da história? Acho que está implicita. De todo modo, colegas, eu não julgo e não creio que devamos julgar nosso valor real, profissional, pelo (mau) salário que nos pagam. Essa realidade ultrajante só persiste porque nós somos muito condescendentes com nossos maus políticos e votamos muito mal e exigimos muito pouco e nos conformamos quando nos dizem “é o mercado, estúpidos!”, o que é uma grande bobagem!

Valor e remuneração não são a mesma coisa. Pensem comigo: qual o profissional mais valioso da sociedade? O médico? O engenheiro?

O agricultor. Imaginem uma greve geral de produtores agrícolas. Poderia ser só dos pequenos e médios produtores, nem precisamos imaginar greve dos grandes empresários do setor que, na prática, só produzem para mercados externos. Quanto tempo a sociedade brasileira iria durar? Mas trabalhar a terra não é a carreira mais concorrida de nenhum vestibular…

Abs