Há que se pagar o preço

por demanboro

Bom dia a todos:

O que leva uma pessoa a escolher uma profissão? Vocação? Um projeto de futuro? Paixão por um determinado assunto? Sentir-se bem em determinados ambientes? Desejos de sucesso?

É provável que tudo isso junto contribua em maior ou menor grau para a escolha decisiva. Cada pessoa, considerando sua formação, história, aptidões e tendências naturais, irá pôr mais ênfase em um ou outro motivo, mas certamente irá considerar todos, em algum grau.

Algumas coisas, eu creio, nunca ficam de fora: por mais que ideais e vocação estejam sempre em pauta, ninguém que procura uma formação de nível superior imagina ou deseja viver uma vida monástica (aquela velha lenga-lenga de que “essa profissão X é um sacerdócio, etc). Todo mundo busca sucesso financeiro. Tirando os que realmente têm vocação para sacerdócio, todos os outros querem uma vida confortável, sem privações e com a possibilidade de viver todas (ou a maioria) das boas experiências que desejar. Isso, é claro, não implica necessariamente em ser rico, mas em ter o suficiente (ainda que “suficiente” seja algo bastante relativo, é claro). Outra coisa que todo o ser humano busca é reconhecimento. dentro de nosso grupo social, talvez transitando entre diversos grupos, todos nós queremos ser reconhecidos pelo que fazemos, que as pessoas reconheçam o valor de nossos esforços e o benefício que trazemos à sociedade. Alguns chamam isso de “status”. Que seja, mas nada mais é que o desejo natural e saudável de ser amado e respeitado, aplicado à vida em sociedade

Alguns economistas têm pontuado que profissionais que trabalham com coisas em geral ganham mais que profissionais que trabalham com gente, com exceção da medicina, que continua sendo a profissão mais bem remunerada em termos relativos (se considerarmos apenas a graduação e não o cargo ocupado ou carreiras militares e de estado).

Em geral, profissionais de humanas são os menos bem remunerados. Mas, a meu ver, a importância não é menor. Aliás, acredito firmemente que as profissões de nível superior podem todas ser colocadas no mesmo patamar em termos de valor real para a sociedade, como já defendi em post anterior. Claro que isso não quer dizer que a sociedade comportaria um milhão de filósofos, por exemplo. Lógico que não haveria trabalho para todos. É preciso que haja diversidade e ponderação. O número de engenheiros deve ser maior que o de economistas, por exemplo. Mas isso não porque a engenharia é mais importante que a economia mas simplesmente porque é mais generalista, afeta mais coisas, está mais diretamente ligada a produção e consumo, etc.

Considerando o que foi dito, chegamos aos problemas da fisioterapia, alguns mais do que bem conhecidos pelos profissionais.

Só para chover um pouco no molhado: há profissionais demais hoje em dia, concentrados nos grandes centros urbanos, particularmente na região sudeste do Brasil. Não há mercado de trabalho para todos. A fisioterapia é menos generalista e mais específica que a medicina. Isso não diminui seu valor mas limita a quantidade de profissionais necessários à sociedade.

Será que ninguém nos últimos anos sabia disso? Por quê se permitiram abrir cursos em cada esquina? Onde está a monitorização social e governamental da educação e das metas de empregabilidade? Nossas insitutições de classe estiveram dormindo? Todos nós profissionais estivemos dormindo?

Não devemos culpar só uma coisa. Tudo contribuiu. Alguém poderá dizer que a culpa é do capitalismo, que são as leis de mercado, oferta e procura, que nosso modelo “capitalista” não põe freios em nada, que permite que os atores sociais em busca de lucro esgotem seus recursos (uma profissão nada mais é que um recurso) em busca do lucro certeiro.

Houve um boom da fisioterapia, um fenômeno em que diversos novos ingressantes apaixonaram-se talvez erroneamente por uma simples idéia da profissão sem conhecê-la a fundo ou se deixaram levar por uma mitologia forjada em torno da idéia “fisioterapia”. Devemos culpar essas pessoas? Claro que não. Por que é sonho e ideal o que leva os jovens a um determinado rumo. Foi assim comigo e é assim com todo mundo. Também não há tanta gente com real vocação para medicina, mas todo mundo quer ser médico. Não é um fenômeno puramente racional. Aliás, a vida humana não é puramente racional.

Por isso acredito que culpar, genericamente, um tal de “capitalismo” também é bobagem. Independente do sistema de trocas e fluxo de bens e serviços escolhido por uma determinada sociedade, os fatores emocionais e ideológicos estarão presentes. Há exemplos demais de erros de avaliação à respeito de como funciona a alma humana em regimes que são ou foram socialistas, e suas nefastas consequencias, para que precisemos citar. Por outro lado, há sociedades modernas que não admitem, mas na prática são socialistas (social-democracia é socialismo com mercado) e que dão super-certo, como é o caso dos países escandinavos todos.

Ideologias e sistemas econômicos todos se equivalem se os indivíduos se afastam do equilibrio. Se resolvem tudo pela razão pragmática ou se põe suas crenças pessoais como verdades absolutas.

Os problemas da fisioterapia são os problemas do Brasil, de cada brasileiro, de cada um e todos os indivíduos dessa sociedade. Assim como os problemas da profissão de advogado ou contador são também problemas de todo mundo. Está na hora de parar de pensar nas profissões apenas como meios que as pessoas escolhem para ganhar um parco dinheiro honesto e que só dizem respeito aos próprios profissionais. Uma sociedade é formada por indivíduos em primeiro plano e, depois, pela forma como estes indivíduos se associam (isto é política). A associação fundamental é a família. A segunda associação mais básica é a profissão e a divisão concomitante da força de trabalho para que cada um exerça um papel útil para a sociedade. Todas as demais instituições derivam disso.

E como podemos chegar nesse equilibrio? É certo que a resposta não é simples. Mas acredito e defendo que nos livrarmos de preconceitos é o primeiro e grande passo. Idéias pré-concebidas têm origem nos becos mais escuros da consciência humana. Não se assentam em fatos mas em desejos torpes de exclusividade, hierarquia, superioridade (ser considerado melhor que os outros, mandar nos outros…). O racismo é um preconceito por quê? Bem, a ciência sequer reconhece o conceito de raças aplicada a seres humanos…

O primeiro link abaixo remete à pesquisa “Você na universidade” da FGV e permite simular aspectos financeiros e de colocação profissional relacionados a sua carreira escolhida ou pretendida. O segundo é um artigo de um colunista da folha de São Paulo sobre universidade e trabalho. Vale a pena ver. Mostram onde estamos mas não para onde vamos. Mesmo assim, conhecer é o primeiro passo para desfazer preconceitos.

Bom fim de semana!

http://www.cps.fgv.br/cps/bd/educ/simula/index.htm

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/49296-universidade-e-trabalho.shtml

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