Hipóteses veladas

por demanboro

Bom dia e bom feriado a todos!

Tenho estado sem publicar há algum tempo. Compromissos diversos com trabalho e estudo me impedem de ter a constância que eu gostaria, não só no blog mas também em vários outros projetos intelectuais paralelos que me são caros. Não posso dizer que seja algo ruim. Pelo contrário. Não encontro tempo para escrever porque estou envolvido com a clínica, a pesquisa, o cotidiano e muitas coisas que, afinal, são a matéria daquilo que é importante falar e escrever.

Hoje, não tenho um tema específico para o post. Resolvi fazer uma espécie de balanço deste blog desde sua concepção. Para isso, pensei em falar nas “hipóteses veladas”.

Quando iniciei  o blog, meu interesse era abordar criticamente temas importantes da prática profissional que não estão diretamente ligados à ciência e técnica em si, mas ao “fazer fisioterapia” enquanto profissão, modo de atenção à saúde das pessoas, prática assentada em bases filosóficas muitas vezes conflitantes.

Neste um ano e pouco de existência do blog tive pouquissimos comentários e apenas uma polêmica expressiva, ao defender minha opinião sobre a não-hierarquização dos diagnósticos na área de saúde e a importância e auto-suficiência do diagnóstico fisioterapêutico, cinesiológico-funcional.

Algumas pessoas entenderam minha posição como anti-médica, coisa que ela não é. Eu nunca poderia ser “contra” a medicina ou qualquer outra área de saúde. Além de absurdo, isto deporia contra minhas próprias concepções.

O que sou é a favor de uma fisioterapia plena, autônoma, independente, auto-suficiente e com prerrogativas isonômicas dentro da área de saúde: encaminhar para quem julgar importante, pedir exames, ganhar o mesmo salário que se paga a outros profissionais por ter o mesmo mérito, ser responsabilizado pelos erros de igual modo e receber o crédito dos acertos da mesma maneira, etc.

Porém, como nós sabemos, defender a autonomia e isonomia das profissões de saúde regulamentadas de nível superior gera muita dissonância, muita polêmica e dá margem a contraditórios muitas vezes virulentos e com ataques pessoais, não apenas por parte daqueles que têm interesses contrários a nossa, digamos assim, “emancipação”, mas também dos próprios profissionais fisioterapeutas. Isso acontece por causa das hipóteses veladas.

A história da fisioterapia, como toda  a história humana e das profissões, é dinâmica e aberta, comportando diferentes estágios, mudanças de rumo, interpretações divergentes, idéias contraditórias sobre o “quê” e o “como” que não se anulam, mas convivem e se chocam umas contra as outras, cada uma buscando prevalecer e ter a palavra final. É uma contínua dialética de opostos e, às vezes, de extremos.

Um exemplo na história geral seria o eterno embate esquerda x direita, democracia x plutocracia, etc…

Em outras palavras, não existe uma verdade última, petrificada, na qual todos devem acreditar porque é a verdade e pronto. Aliás, isso de uma verdade definitiva não existe mesmo. É fácil e útil querer acreditar que sim. Facilita as coisas, desobriga de ter que pensar. Basta você dizer que “médicos fazem isso, fisioterapeutas fazem aquilo…” ou “medicina é cura, fisioterapia é reabilitação”, botar uns rótulos nas coisas e viver segundo esses rótulos. Embora seja irreal, isso é um porto seguro que nos tira a responsabilidade de lutar e brigar eternamente (porque é uma luta inglória e eterna) por novas posições.

No entanto, a história mostra que tal atitude dogmática costuma ter um preço: os fatos vêem e atropelam aqueles que acreditavam que tinham  tudo sob controle. Em outras palavras: quem fica parado é poste! E, falando ainda mais claramente: fazer as coisas de um modo que deixe todo mundo feliz em seus papéis tradicionais, sem “mexer com quem está quieto”, não garante segurança nenhuma a ninguém. Nem os médicos do ato médico terão a área de saúde a seus pés se “colocarem em seus lugares” os demais profissionais de saúde nem nós estaremos bem se aceitarmos perdas em troca do conforto de uma “área bem delimitada”. Outra coisa que parece ser uma regra da história: os espaços vazios sempre são ocupados…

Se existe uma idéia geral neste blog, portanto, é que eu acredito que a fisioterapia deve avançar até os seus limites mais extremos, por uma busca ativa do novo, uma exploração de suas possibilidades não apenas teóricas mas também práticas. Que nós devemos querer sempre mais. E eu acho que isso não é contraditório com uma área de saúde integrada, humanística e com diferentes atores desempenhando diferentes papéis de forma intercomplementar e com poucos pontos de conflito. Acho uma “hipótese velada” altamente discutível a idéia de que só pode haver uma área de saúde com estas características se cada um tiver seu campo bem delimitado. Um “campo bem delimitado” nunca existiu em nenhuma atividade humana. Basta ver o que acontece com físicos e químicos, por exemplo…

Outras “hipóteses veladas” de uma verdadeira filosofia da prática, que muitos de nossos colegas usam no dia-a-dia porque aprenderam na faculdade, ou no primeiro emprego, ou em livros de autores engajados (acreditem, todo mundo é engajado com alguma coisa) são, por exemplo, as idéias de que fisioterapia e reabilitação são sinônimos, que a área de saúde não anda sem um profissional “superior” que supervisione todos os outros, que é preciso limitar os campos de atuação por meio de leis para garantir nosso “espaço”, que a fisioterapia não pode ser sistêmica (essa é uma das piores, a meu ver), que somos e sempre seremos profissionais dependentes da indicação de outros profissionais, etc…

Às vezes o profissional se diz contra todas essas hipóteses e, no seu dia-a-dia, age contra aquilo mesmo que diz acreditar, quando por exemplo diz a um paciente que não pode atendê-lo sem guia médica. Digamos que ele realmente não possa, porque é uma exigência do setor. Ok, basta dizer que não pode atendê-lo porque ali, naquele lugar, é uma exigência. Não incutir no paciente que aquela é uma regra verdadeira por principio. “Ah, as pessoas não entendem essas coisas!”. Entendem sim. Temos que parar de achar que as pessoas são bobas ou que não adianta explicar porque  têm “baixo nível de instrução”. Isso é preconceito. Um preconceito igual ao que diz que “por principio, fisioterapeutas são vinculados à medicina” ou aquele outro que diz que “todas as profissões de saúde vieram da medicina e existem para ajudá-la”.

Essa última não é verdade mesmo. Eu já falei sobre isso neste blog. Mas não é necessário argumentar demais para defender este ponto. Basta lembrar que antes de Pasteur não se sabia a respeito de germes, não havia pensamento causal sobre as doenças, e isso foi no século XIX. Esse foi o marco da medicina moderna, mais ou menos a mesma época em que a ginástica terapêutica ganhava corpo como prática de saúde na Suécia (o inicio da fisioterapia moderna). A medicina e a fisioterapia estabeleceram diferentes graus de relacionamento e dependência ao longo do tempo? Sim, mas isso não implica que nasceram juntas. A história da psicologia é a mesma: não “nasceu” da psiquiatria mas da filosofia racional que remonta aos gregos, tendo se tornado uma disciplina autônoma mais ou menos na mesma época em que todas as outras ciências foram se consolidando: a incrível segunda metade do século XIX…

Conhecer não traz a verdade mas nos afasta de preconceitos.

Grande abraço e até a próxima!

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