Diagnóstico fisioterapêutico x Diagnóstico médico

por demanboro

Bom dia a todos!

Recentemente, recebi um comentário de uma colega, postado no blog, com um argumento muito significativo em favor da prática multidsiciplinar de acupuntura, um argumento que “quebra” o falacioso argumento da Associação Médica Brasileira de Acupuntura de que é necessário um diagnóstico preciso da doença para que a acupuntura não venha a mascarar um quadro grave e que só médicos podem fazer isso. O argumento da colega, corretíssimo, é que, na maioria dos serviços de saúde brasileiros, seja convênios ou SUS, a consulta de primeira entrada e o encaminhamento para especialidades (inclusive fisioterapia e acupuntura) são feitos por médicos e, portanto, o diagnóstico, teoricamente, já estaria dado. Isso é verdade e derruba mais um argumento espúrio dos médicos  nesta questão.

Por outro lado, abre uma discussão interessantíssima sobre a procedência dos diagnósticos multiprofissionais, qual deve vir primeiro e se é necessário que haja uma ordem entre eles. Para os colegas que acompnaham o blog, minha convicção a esse respeito já deve ser conhecida, mas, como esse é um dos temas mais importantes em nossa área, reproduzo abaixo a resposta que dei à colega, que ela me autorizou a publicar, e na qual pondero exatamente sobre essa questão:

“Cara… , boa tarde:

 Obrigado por sua participação no blog. Já coloquei seu comentário e o considero muito pertinente. Gostaria apenas de fazer um adendo, para reflexão:

 Apesar de concordar que, no Brasil, geralmente avaliamos o paciente após o diagnóstico médico, e que portanto, do ponto de vista da argumentação deles, o diagnóstico seguinte (de acupuntura) seria feito com base no diagnóstico inicial, não defendo que isso seja necessário ou mesmo vantajoso para os pacientes ou para a área de saúde em geral.

 Em muitos países, e o caso da Austrália é particularmente emblemático, o diagnóstico fisioterapêutico não precisa vir depois do diagnóstico médico, porque os diagnósticos são entendidos como formas independentes de se abordar o paciente conforme um ponto de vista particular à profissão, e se considera que a base comum de conhecimentos em saúde de todos os profissionais lhes permite encaminhar e contra-encaminhar os pacientes quando entendem que outro diagnóstico e outra abordagem são requeridos. Fundamentalmente, aqui no Brasil, nós fisioterapeutas em particular temos suficiente conhecimento geral para discernir, à partir do nosso diagnóstico, até onde podemos ir, se podemos resolver o problema do paciente sozinhos ou não. Está em nossa formação.

 Podemos e devemos querer ser autônomos e só não o somos por causa de barragens sociais, muitas delas criadas por nós mesmos na prática de nossa profissão e outras que atendem a interesses poderosos (como o lobby médico por monopólio da acupuntura, por exemplo). Portanto, apesar de entender que seu argumento é corretíssimo e invalida ainda mais o argumento médico a favor de que só eles façam acupuntura, eu não costumo defender ou dizer para meus pacientes que eu “preciso primeiro do diagnóstico médico” para poder atendê-lo. Digo simplesmente que médicos e fisioterapeutas trabalham em conjunto, cada qual com seu diagnóstico. E acho que, um dia, o SUS e os convênios não exigirão mais encaminhamento médico para atendimento de fisioterapia.

 Nos tornarmos profissionais de primeira entrada pode parecer um sonho, ou um horizonte distante, mas não creio que tenha sido fácil para os fisioterapeutas de outros países onde a profissão tem mais autonomia conseguirem o que conseguiram. Se conhecemos a nossa verdade e lutamos por ela, ainda que apenas nas pequenas ações do dia-a-dia, podemos chegar lá.

 Note que não estou dizendo que devemos recusar guias médicas ou atender sem elas. Se a lei ainda é essa, ela deve ser seguida. O que digo é que, no futuro, pode ser diferente, e isso depende de começarmos a explicar às pessoas, pacientemente, como as coisas realmente são e não como a lei faz que elas sejam. Afinal, leis evoluem para acompanhar o progresso, ou não se trata de lei mas simples ditadura de costumes.

 Novamente, obrigado pela participação!

 Abs:

 Alan”

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