A propaganda é a alma do negócio

por demanboro

Caros colegas, uma pergunta: como vocês se vendem para a sociedade?

Não, não me refiro à forma como fazem publicidade de seus consultórios, clínicas ou trabalho liberal. Falo da forma como vendem o “nosso” peixe, a enorme importãncia, relevância e dignidade da profissão de fisioterapeuta.

O tema deste post me ocorreu na segunda-feira desta semana, durante o expediente na clínica em que trabalho no serviço público municipal, um dia apelidado carinhosamente de “segunda-feira do inferno”. Talvez alguns colegas saibam, mas não sou das pessoas mais organizadas. Graças a Deus, não preciso ser (todo o tempo) pois tenho pessoas como nossa excelente secretária e recepcionista para me ajudar com isso. Estava conversando com ela sobre a dificuldade em ajustar os horários de pacientes de forma a não sobrepor dois ou três casos de trauma no mesmo horário. Eu disse que nosso começo de ano estava ficando “quente” ou “impossível” (brincando um pouco…) e ela retrucou que ia piorar e me mostrou uma guia para tratamento de fratura de joelho…

Quase todo começo de ano é igual. Os ferimentos, traumas, lesões e, principalmente, acidentes automobilísticos ocorridos durante as festas de final de ano nos trazem uma enxurrada de novos pacientes. Casos difíceis, como os colegas que tratam com traumatologia bem sabem. É a sazonalidade própria da fisioterapia que, como toda ciência de saúde, tem seus períodos mais difíceis e outros mais fáceis (como o inverno para os pediatras, por exemplo, incluindo-se ai, é claro, pediatras médicos e pediatras fisioterapeutas).

Nas segundas, quartas e sextas não há, atualmente, nenhum horário em que não tenhamos, nossa equipe de cinco profissionais de fisioterapia geral e um fisioterapeuta acupunturista, pelo menos um ou dois casos envolvendo fraturas ou lesões traumáticas. Uma sequela tardia de ombro congelado, em particular, mobiliza a maior parte de nós: uns estabilizando o paciente enquanto outro tenta romper as aderências articulares. Um espetáculo às vezes um pouco agressivo para os pobres pacientes com dores que involuntariamente assistem à cena.

Mas por quê estou contando estas histórias? Para perguntar aos colegas como vendem sua profissão. É que, honestamente, eu já estou um pouco cansado deste paradigma do fisioterapeuta que trabalha com postura, que cuida “das costas”, etc. Nada contra, é óbvio, o importantísimo trabalho dos colegas que atuam em posturologia. A questão não é essa. Mas, às vezes, parece que nós fisioterapeutas não temos imaginação para explicar para as pessoas e divulgar as coisas realmente “barra pesadas” que fazemos no dia-a-dia e o quanto elas impactam na saúde das pessoas. A postura e a dor nas costas se tornaram nossos paradigmas de atenção, às vezes, a ortopedia corriqueira (tendinites, bursites…), sendo que temos tantas áreas de atuação, tanta abrangência de campo…

Sei que alguns colegas devem estar pensando que “a valorização da fisio melhorou muito” e que as pessoas já sabem mais à respeito de sua importância e pedem este tipo de atenção, que sabem que se quebrarem algum osso vão precisar de fisioterapia etc. Novamente, não é bem disso que estou falando, mas de imagem mesmo. Marca, signo e, melhor ainda, simbolismo. Tendo a fisioterapia a importância que tem na área de saúde, por que não conseguimos traduzí-la de uma forma que ela apareça tão emblemática quanto a medicina?

“O médico salva vidas!”. Esta mensagem é tão martelada e está tão subliminarmente ligada aos médicos que é quase um subtítulo: “Aquela pessoa é um (uma) médico(a), que salva vidas”. Ora, nós sabemos que não é bem assim! Estamos falando de quê? Socorristas? Emergentistas? Profissionais de UTI? Bem, nestas áreas e em algumas outras, onde o profissional recebe os pacientes em estado crítico, sim, médicos salvam vidas, mas, em geral, não são só eles também, não é verdade? Com o avanço da técnica e a divisão do trabalho especializado em saúde, qualquer equipe de PS ou emergência conta (e deve contar) com enfermeiros, fisioterapeutas, radiologistas… A pessoa que opera um vetilador mecânico numa UTI tem tanta responsabilidade em salvar uma vida quanto quem intuba e extuba o paciente, e essa pessoa, hoje em dia, é um fisioterapeuta, certo? Então por que apenas o médico “salva vidas”?

Considerada em seu contexto global, a medicina é muito mais sobre aliviar o sofrimento e cuidar de problemas de saúde que propriamente sobre salvar vidas. A maioria das áreas (orotopedia, reumatologia, dermatologia, ginecologia e obstetrícia, geriatria, enfim…) não lida com o paciente crítico no dia-a-dia. Muitos fisioterapeutas lidam com mais pacientes críticos em um dia que muitos médicos em uma vida inteira de profissão. E isso, claro, não desmerece de modo algum o profissional médico que atua em áreas diversas da atenção ao paciente crítico, pois todas as áreas são importantes. Mas ainda que ele seja especialista em uma área ambulatorial, sua aura de respeitabilidade e importância será maior que a de qualquer fisioterapeuta. Por quê?

Bem, dois fatores, a meu ver: o primeiro, e contra o qual nunca poderemos fazer nada, é que fisioterapeutas são, ao mesmo tempo, falando a “grosso modo”, o profissional e o remédio. Explico: nós avaliamos, diagnosticamos e induzimos a terapia, tudo ao mesmo tempo. O paciente não sai do nosso consultório, vai comprar um remédio, se trata em casa e volta depois de um tempo para vermos se melhorou. Ele precisa vir até nós duas, três vezes por semana e até mesmo todos os dias, durante semanas, meses ou até anos. Fica, literalmente, em “nossas mãos”. Ou seja: se torna próximo. Não necessariamente íntimo, é claro, mas próximo. E, com isso, lá se vai a aura de “sabedoria Olímpica” e “infalibilidade”, que muitos médicos têm. Se isso é ruim? Não, de modo algum! é um dos motivos porque fisioterapia é uma prática tão rica e dinâmica e uma profissão apaixonante. Só que, é preciso admitir, essa característica tem suas desvantagens também. Nunca conseguiremos ser tão “Deuses” quanto os médicos, simplesmente pelo fato de estarmos próximos demais de nossos pacientes. Paciência, é um fato da vida e da psiquê humana…

Mas sobre o segundo fator nós temos total controle! O fator “peso” da profissão. O que quero dizer com isso?

Quero dizer o seguinte: nós em traumatologia, por vezes, atendemos pessoas que nos chegam em estado deplorável, vítimas de traumas gravíssimos, restritas à cadeiras de rodas, politraumatizadas, incapacitadas não só para o trabalho como para a vida. Em meses, nós as  devolvemos à vida, em diferentes graus, é claro, de comprometimento sequelar, mas com certeza melhores do que chegaram e, às vezes muito melhores! Em neuro, incapacidades que muitas vezes significam a perda total de autonomia ou capacidade para o trabalho e a vida podem ser parcial ou totalmente revertidas ou manejadas. Em PS, enfermarias, UTIs, fisioterapeutas concorrem para a preservação da vida dos pacientes, junto à equipes com várias outras formações profissionais. Isso sem falar em tudo o que fazemos e que tem efeito preventivo de preservação e ampliação da expectativa de vida e que, por dificuldades de mensuração dos anos a mais de vida ganhos, passam despercebidos em relação à sua importância: fisioterapeutas da área cardiovascular prolongam em quantos anos a vida de um cardiopata recém-revascularizado após um programa bem executado de reabilitação? Colegas que trabalham com grupos de atenção básica previnem gravíssimos episódios de AVC ou infarto em portadores de Hipertensão, Diabetes ou dislipidemias, mas quem sabe disso? Não aparece nas estatísticas quando tudo dá certo, só quando dá errado…

Apesar de tudo isso e muito mais que não deu para citar aqui, por que nossos folhetinhos explicativos, nossa propaganda institucional, nossas palestras sobre saúde, quase sempre recaem em “corrigir as costas”? (repito, não tenho nada contra a posturologia, que evita e corrige problemas muito sérios também. O meu argumento aqui é contra o massacre de uma única “imagem” profissional nas mentes da população).

Pessoal, a fisioterapia hoje em dia faz muitas coisas, inclusive, salva vidas, preserva vidas, reverte as consequências de traumas e lesões, desacelera a progressão de doenças gravíssimas. Vamos falar sobre isso! Vamos inculcar isso na cabeça das pessoas! Por quê é disso que nós somos feitos: da luta diária pela preservação da vida e da dignidade humanas.

Um abraço a todos:

Em tempo: a campanha do crefito que mostra as mãos de um fisio ajudando um menininho a posicionar adequadamente uma mochila é, pelos argumentos aqui apresentados, reducionista, mas é um bom começo porque há até bem pouco tempo nós não tínhamos propaganda na TV. Já era hora de começarmos a ter mesmo! E quem sabe a próxima campanha não mostre um fisioterapeuta operando um ventilador mecânico ou recuperando uma fratura complexa?

Anúncios