Transdisciplinaridade

por demanboro

Caros, bom dia.

Acho que está na hora de tocar numa ferida.

Este post é sobre “interdisciplinaridade”, “multidisciplinaridade”, “transdisciplinaridade” e noções congêneres. As palavras são ótimas, os conceitos lindos, mas eu, 13 anos depois de formado e de ter sido massacrado por elas todo esse tempo, ainda não sei o que querem dizer.

Mesmo tendo trabalhado para diversos empregadores e, dentro de uma mesmo empregador, em diversas unidades de saúde, e tendo ouvido em todas estas unidades, hospitalares ou ambulatoriais, que todo mundo ali trabalhava “multidisciplinarmente” e às vezes até “transdisciplinarmente”, que eu seria “parte de uma equipe”, tudo que encontrei de diferente em relação ao meu trabalho era que se perdia muito tempo em reuniões intermináveis onde se abraçava o óbvio, cada qual dizendo que iria fazer com o paciente “X” ou “Y” exatamente o que era seu dever profissional fazer, e esperando uma opinião dos demais que, se vinha, era arbitrária, pois muitas vezes de alguém que não conhecia seu escopo técnico-científico (ou seja, de outra área), uma opinião que, necessariamente, tinha que entrar por um ouvido e sair pelo outro. Ou então formavam-se grupos de atendimento (“fisio” + “fono” + “TO” + “psico”… uma raridade ver médicos nestes grupos mas às vezes acontecia) que no fim das contas tinham uma linha terapêutica, em geral psicossocial, levada a termo por uma membro da equipe e “seguida”, “acompanhada”, “complementada” ou “enriquecida” pelas visões terapêuticas dos demais (ou seja: muita gente ociosa enquanto um apenas trabalhava, muita gente ganhando pelo mesmo atendimento e pouco resultado prático mensurável em relação às queixas dos pacientes. Aliás, pessoas que amam “transdisciplinaridade” odeiam escalas e instrumentos de medida de melhora clínica. Dizem que não se pode “reduzir” um ser humano complexo à números numa escala).

Creio que os colegas já perceberam o que eu eu penso destes conceitos. Eu penso que eles são arbitrários, puros sofismas. E que servem muito mais a interesses ideológicos-políticos ou pseudo-religiosos disfarçados, do que ao bem dos pacientes propriamente.

E gostaria de deixar claro que, com isso, não quero dizer que não acredite em trabalho em equipe. Mas trabalho em equipe só pode significar, de verdade, uma coisa: múltiplas abordagens para a melhor resolução de um quadro complexo. Isso é uma fato inegável em saúde: que todos os problemas são complexos, que o próprio indivíduo tem peculiaridades que o tornam único e que a abordagem de um único profissional, em geral, é  insuficiente na resolução dos quadros. Daí não se depreende que cinco profissionais diferentes com um grupo de pacientes numa mesma sala seja mais eficaz que cada um na sua sala cuidando do paciente dentro de seu campo de atuação.

Também não significa, é claro, que profissionais de diferentes áreas não possam trocar experiências e crescer profissionalmente pelo entendimento mais global do paciente e da patologia. Este crescimento pelo diálogo encontra melhor espaço para se expressar numa conversa informal de corredores ou numa happy-hour animada que em qualquer reunião improdutiva.

Talvez os colegas achem que eu estou sendo radical. Bem, eu quis deixar claro que eu não considero estas coisas como verdades irredutíveis e inquestionáveis do trabalho terapêutico como nos vem sendo vendido (e muitos de nós se sentem desconfortáveis em questionar a “transdisciplinaridade”. Perguntados à respeito, por alguém com uma diletante voz acusatória, sentimos vergonha de dizer “eu não acho tão bom assim”, porque parece que ser crítico em relação a estes conceitos é ser velho, ultrapassado, isolacionista (talvez um pouco egoísta), um tecnicista que não tem o “pensamento holístico” e outros xingamentos dessa espécie.

Em principio, o conceito de transdisciplinaridade é ótimo. Não vou falar dele, tenho certeza que, em teoria, os colegas o conhecem. Mas me digam o que ele se torna na prática?

Vamos ouvir a opinião do médico? Ele esbanja seu tecniquês para nos dizer, veladamente, que é ele que sabe mais? O fisio e a fono vão trabalhar juntos… Ok, como? Fisios não estudam linguagem, fonos não estudam cinesiologia e terapia física. Qual é nosso ponto de encontro? E não me venham dizer que no modelo “transdisciplinar” todos devem saber um pouco de tudo sem interferir na área alheia, mas estando todos inseridos num arcabouço comum. O que isso quer dizer, afinal? “Saber um pouco de tudo?”… Isso é mesmo possível? As ciências de saúde são iguais para todos, mas as especificidades profissionais são únicas, ou não precisaríamos sentar em bancos escolares diferentes ou ter conselhos profissionais diferentes… Onde todos nós, médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, dentistas e afins, nos unimos, é em anatomia, fisiologia, patologia, cito-histologia… o básico do básico da saúde. Todos nós já falamos a mesma lingua! Que mais as pessoas querem unir? E essa história de ninguém interferir com a área dos demais, embora trabalhando juntos? Isso não parece meio contraditório? Ou bem se trabalha junto, ou cada um está na sua…

Trabalhar em equipe é primordial na área de saúde, mas trabalhar em equipe não é o mesmo que trabalhar junto num mesmo espaço ou chegar em consensos. Consensos são coisas horríveis! Para ajudar mesmo um paciente é preciso diversidade de ações, às vezes, é preciso conflito (que eu ache que o outro é insuficiente e tente fazer melhor, que o outro me ache fraco e diga que o método dele é que é o bom…). No final, o paciente vai se beneficiar de uma saudável disputa entre áreas para ver quem consegue fazê-lo avançar mais na resolução de seu quadro, muito mais do que se todos se ungirem por um consenso, quase sempre abertamente ou veladamente indicado pelo membro mais forte da equipe (leia-se: o mais bem articulado, mais político. mais cheio de tecniquês ou que todo mundo considera Deus na terra porque fez duas residências médicas). E o conflito de posições não precisa significar bagunça, muito menos que os profisssionais envolvidos não vão compartilhar informações sempre que possível. É apenas a boa e velha competitividade humana em ação. Se Russos e Americanos nunca tivessem competido, o homem jamais teria deixado a terra ou pisado na lua… O que não quer dizer que a guerra fria tenha sido boa. Mas competitividade e conflito não têm necessariamente que caminhar juntos. Podemos ser amigos e rivais. Certo?

A transdisciplinaridade, do jeito que vem sendo ideologicamente pregada, atende aos interesses corporativistas e hierarquistas médicos, porque tira a força das profissões individuais de saúde e nos coloca a todos num mesmo balaio de gatos, uniformizando-nos e permitindo que eles sejam os únicos diferentes da história. Os que pairam acima. Estou exagerando?

Talvez. Este espaço está aberto às críticas dos colegas. Não tenho a verdade, apenas minhas opiniões, que eu tento embasar em dados mas que, às vezes, são apenas sentimentos e opiniões mesmo.

Para finalizar este post, fica apenas uma sugestão, ou desafio: tentem achar dados estatísticos sobre eficácia real de abordagens transdisciplinares. Fujam dos artigos com principios, discussões filosóficas, elucubrações sobre paradigmas de complexidade e afins, e vejam se encontram números.Não sei vocês, colegas, mas a meu ver a matemática é a mais espiritual das ciências…

Grande abraço a todos:

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