Valor

por demanboro

Bom dia a todos.

No primeiro post de 2012, gostaria de falar sobre valor.

Não sou economista e, embora tenha lido um pouco e conheça alguns conceitos de Adam Smith, Keynes, Marx e outros precursores da economia moderna, de um modo na verdade utilitário, de “usuário”, por assim dizer, não vou levar esse post por um caminho de questionamento das noções de produção, lucro, força de trabalho e mais-valia, embora todos estes conceitos (e suas discussões) sejam muito importantes para o tipo de argumento que eu tenho em mente. De fato, por considerá-los importantes e, mais que isso, a essência da sociedade de produção capitalista em que vivemos, posso, de forma talvez um pouco cômoda para mim, considerar que todo mundo vive essa realidade todo o dia, uns com mais conhecimento de seus mecnismos do que outros, mas igualmente afetados por eles. A questão que quero colocar é: o valor de nossa força de trabalho, como fisioterapeutas, é alguma espécie de valor “real”? Em outras palavras: é o que merecemos ganhar.

Minha resposta é não, claro. Como acredito que seja a de todos os colegas que militam nesta profissão. Não creio que alguém esteja satisfeito com os salários pagos pelo mercado e não poderia ser diferente. O “mercado”, este conceito que todo mundo finge entender mas que no fundo é só uma entidade abstrata formada pelo uso que um coletivo de seres humanos faz de outra variedade de abstração chamada “dinheiro” dentro de um sistema consensual estranho cujas regras ganham autonomia segundo sua própria lógica interna, que é a economia ou troca de bens e serviços entre pessoas. Esses monstros mitológicos não nos pagam bem.

Aliás, não pagam bem para a saúde, a educação e a segurança. Não pagam bem para atividades voltadas ao bem-estar do homem em geral mas valorizam (e muito) atividades que geram bens materiais e/ou que maximizam o lucro empresarial e, principalmente, do sistema especulativo de se transformar dinheiro em mais dinheiro sem produzir nada, por meio de transações fechadas (grosso modo).

Vejam: não sou economista e também não sou comunista, socialista, nada disso. Acredito no capitalismo como forma econômica, não perfeita, ou ideal, mas que, até o momento, é aquela que melhor concilia os desejos psicológicos dos seres humanos por bens e serviços que possam nutrir a vida e potencializar seus prazeres com a necessidade de dividir os recursos finitos que temos. O capitalismo tem distorções e privilegia muito uns poucos em detrimento da maioria (às vezes) e às vezes favorece o enriquecimento de parasitas. Mesmo assim, ele permite autonomia, crescimento por merito, liberdade de troca segundo a potencialidade individual de cada um (o artista vende sua arte, o técnico sua técnica, etc…) ao contrário de todos os outros modelos já testados, que buscavam uma partilha supostamente justa mas que tomava todos por uma linha de base, anulando a individualidade e a criatividade em troca da igualdade.

Mas o ser humano, a meu ver, não tem o imperativo de igualdade impresso em seu genoma. Nossa meta “biológica” é maximizar nossa sobrevivência e bem-estar pessoal e de nossas famílias, não a da sociedade como um todo. O bem da sociedade vem quando os indivíduos podem ser supridos em suas necessidades biopsicossociais. O bem da sociedade é um ideal a ser buscado, lógico, mas deriva da satisfação individual. O indivíduo é a célula. Por pensar assim, não gosto de coletivismos.

Isso significa que o “mercado” e suas leis são justas em remunerar a nós, fisioterapeutas? Não, não significa. Nem que isso vá melhorar “conforme o capitalismo evolua”, segundo dizem alguns profetas da política “empresarial” que querem nos vender o peixe de que é justo eles estarem onde estão. Mas talvez o mercado não exista para ser justo e, com certeza, não é a lei da oferta e da procura que nos está prejudicando. São as pessoas. Certo?

Explico: Nós que vivemos de um serviço tão importante quanto recuperar a saúde das pessoas (o que é a base para o trabalho e o bem-estar individual e, por tabela, da sociedade) fazemos parte de um sistema caro que gera prejuízo e não lucro (no mundo, não apenas no Brasil, saúde requer financiamento. Nos EUA este financiamento é feito pelo seguro social dos trabalhadores e aqui, e em outros países, pelo governo, ou seja, pelos nossos impostos, pagos por todo mundo). A saúde, desta forma, de certo modo, assim como a segurança e a educação, está fora das leis de mercado clássicas. Saúde só dá prejuízo, ponto. É claro que há hospitais por ai que dão lucro e clínicas que dão lucro. Isso não é o macro-sistema de saúde mas o micro-sistema, a saúde enquanto negócio, que não é para todos mas para quem pode pagar por ela individualmente (porque, coletivamente, todos nós pagamos). É possível imaginar uma sociedade próspera, onde todos ganhem muito dinheiro (uma super-classe-média) e possam pagar por uma saúde de excelência? Bem, talvez na escandinávia seja assim, quem sabe… São países pequenos, populações pequenas… Bem, talvez um dia o mundo inteiro seja assim. Mas não vivemos assim, aqui, agora.

Qual é a conclusão disso? A conclusão é que a culpa de uma má gestão de saúde e má remuneração de seus profissionais é política, não econômica. Afinal, saúde não dá lucro mesmo, ela permite o lucro. E não vivemos só de mercado. O capitalismo é bom até certo ponto (se você é um empresário, tem uma clínica particular, sua clínica tem muitos pacientes e você vai bem nos negócios, que bom, certo? A maioria de nós trabalha para o mercado mas também tem seus pacientes particulares, dos quais cobra honorários condizentes, todos nós somos pequenos burgueses vendendo nossos serviços, também), mas o capital não é a única verdade e nem poderia ser. Ele supre o mundo de coisas, não de justiça. Para isso existe a política, que, entre outras funções, deve regular o mercado para que ele sirva aos interesses da sociedade (à partir do respeito ao indivíduo, principalmente. É dever da política, não do mercado, garantir que todos tenhamos as mesmas oportunidades de desenvolver ao máximo nossos potenciais).

Isso dito, qual é a moral da história? Acho que está implicita. De todo modo, colegas, eu não julgo e não creio que devamos julgar nosso valor real, profissional, pelo (mau) salário que nos pagam. Essa realidade ultrajante só persiste porque nós somos muito condescendentes com nossos maus políticos e votamos muito mal e exigimos muito pouco e nos conformamos quando nos dizem “é o mercado, estúpidos!”, o que é uma grande bobagem!

Valor e remuneração não são a mesma coisa. Pensem comigo: qual o profissional mais valioso da sociedade? O médico? O engenheiro?

O agricultor. Imaginem uma greve geral de produtores agrícolas. Poderia ser só dos pequenos e médios produtores, nem precisamos imaginar greve dos grandes empresários do setor que, na prática, só produzem para mercados externos. Quanto tempo a sociedade brasileira iria durar? Mas trabalhar a terra não é a carreira mais concorrida de nenhum vestibular…

Abs

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