O principio da Falseabilidade em ciência e a terapia física

por demanboro

O filósofo anglo-austríaco Karl Popper (1902-1994) é muito conhecido dos cientistas. Ele, em parceria com outros grandes filósofos do século XX como Thomas Khun, Paul Feyerabend e Kurt Godel, introduziu conceitos que delinearam não exatamente o que seria o método científico moderno, mas os limites do fazer científico bem como as condições de criação, verificação ou refutação das teorias.

O principio da falseabilidade de Popper está entre os mais importantes neste quesito. Ele afirma, de forma bastante simples, que uma teoria é científica quando pode ser refutada, ou, em outros termos: “falseada”. Ou seja, quando podemos pressupor que um novo fato ou fenômeno possa contradizer a teoria, tornando-a errada, ultrapassada ou incompleta. Um exemplo famoso de que esse principio é muito significativo em ciência envolve a gravitação e as leis de movimento de Newton, parcialmente suplantadas pela teoria da relatividade de Einstein. As leis de Newton para o movimento continuam válidas em pequena escala, mas não se aplicam a objetos movendo-se próximos à velocidade da Luz, como demonstrou Eisntein. Isso implica que a teoria de Newton é errada? Não, ela era muito correta à época em que foi elaborada, simplesmente porque ainda não se havia pesquisado à respeito dos fenômenos que levaram Eisntein a formular suas teorias. Hoje em dia,  a teoria de Newton mostrou-se falsa para certos fenômenos e objetos, mas ainda correta para outros. Sua falseabilidade demonstra o seu caráter intrinsecamente científico.

Nas ciências da saúde o príncipio da falseabilidade é igualmente importante. Demonstra-se, em pesquisa clínica, que um determinado procedimento é útil no tratamento de determinada patologia, no que diz respeito ao estado atual de conhecimento da mesma, mas este determinado procedimento está fadado a ser suplantado por outro embasado em uma melhor compreensão do problema e/ou que demonstre maior eficácia clínica que seu predecessor (ou seja, o primeiro procedimento foi “falseado” pelo segundo, que se provou melhor, etc).

Faço essas considerações metodológicas, é claro, para chegar num ponto de questionamento importante para nós, terapeutas físicos: Será que nós estamos observando atentamente os critérios de validade e falseabilidade de nossas teorias fisiológicas e métodos terapêuticos? Ou estamos muitas vezes acreditando em dogmas, sem questionar? (Essa crítica, é claro, poderia ser feita a qualquer profissão e profissional, mas estes outros não são meu foco aqui).

Por exemplo: uma pesquisa rápida à base de dados brasileira “Scielo” retorna seis artigos para os termos de busca “Reeducação Postural Global”. Um destes artigos é de meta-análise. É um número pequeno para uma metodologia tão indicada. Sobre os principios de ação das posturas globais, bases do método, há ainda menor menção. Não quero dizer nada sobre o método RPG em si, que, honestamente, não conheço, mas sobre a ciência por trás do método. É muito provável, ao meu ver, que ele seja bom e eficaz, mas o corpo teórico que o sustenta ainda é pequeno e insuficiente.

O mesmo vale, por exemplo, para uma pesquisa em uma base de dados muito mais ampla como a Pubmed, à respeito da Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva, um método que a maioria de nós da fisioterapia neurológica usa corriqueiramente e considera extremamente valioso, útil e eficaz. 55 artigos, nenhum dos quais de meta-análise e espalhados em interesses tão difusos quanto sindromes raras e disfunções ortopédicas, não funciona como uma base de evidência que se possa chamar de realmente forte.

O que me inspirou a falar sobre isso neste post é que tenho lido em blogs de nossa área e ouvido de colegas que “a fisioterapia evoluiu muito” porque hoje temos uma miriade de métodos como RPG, Pilates, Iso-Stretching e etc para cuidar de nossos pacientes e não só “alongar e fortalecer” (eu sou um entusiasta da cinesioterapia clássica e acredito que sua abrangência vai muito além do “alongar e fortalecer” de que às vezes ela é acusada, mas isso fica para outro post).

Que se busquem e criem novas alternativas terapêuticas é sempre fantástico e, como eu já defendi aqui inúmeras vezes, é um de nossos maiores objetivos enquanto profissionais. Contudo, não podemos deixar de ser críticos. É importante reconhecer que o novo só é realmente “inovador” ou “revolucionário” quando passa pelos critérios de prova, análise acurada de suas premissas, testes de falseabilidade, escrutínio minucioso em clínicas e laboratórios por meio de estudos clínicos com grupos independentes aleatorizados, em estudos com número relevante de sujeitos do ponto de vista estatístico, enfim, que sejam validados por pesquisas que sigam todos os cânones da boa ciência.

É necessário perguntar, sobre uma abordagem terapêutica: quão longe isso vai? Realmente funciona do jeito que diz que funciona? É mais útil (ou menos útil) quando aplicada em que cenários terapêuticos? E, principalmente, como funciona? Porque não podemos alegar que temos um método eficaz se não sabemos como funciona, quais seus efeitos imediatos e tardios no organismo humano, seus prós e seus contras.

O quão permissivos nós somos com a moda? Ou com os critérios de mercado? Se um método cai “na boca do povo”, aparece nas novelas, em noticias de jornais, passam a se abrir clínicas deste método em cada esquina. O efeito, a meu ver, é perverso, porque cria uma casta de pseudo-sábios mais movidos pelo lucro que pelos resultados. Certos modismos surgem e parecem tornar obsoletos todos os métodos tradicionais, vendem-se como revolucionários, quando na verdade não têm sólidos fundamentos. E isso, a longo prazo, compromete a base de sustentação de toda a ciência. Porque a área de saúde tem a ver com respeitabilidade, sobretudo. Sem isso, tudo evapora, inclusive o sucesso pessoal.

Um bom dia a todos.

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