Preconceito interno e conduta afirmativa

por demanboro

Caros, bom dia!

A fisioterapia padece de preconceito interno. Em 13 anos de prática clínica já ouvi todo tipo de afirmação demeritória e reducionista à respeito do papel do fisioterapeuta e da fisioterapia em relação à área de saúde, ditas por fisioterapeutas, para fisioterapeutas. Os colegas devem ter ouvido também. Coisas como “o nosso papel é complementar”, “dependemos do diagnóstico médico”, “o fisioterapeuta é um profissional que depende de outros”, etc. Cientes desse auto-preconceito, alguns colegas alegam que isso se deve à falta de tradição em nossa área, à história recente da fisioterapia, a heterogeneidade das pessoas que procuram a área e seus objetivos…

Sempre achei o argumento histórico falasioso, porque, honestamente, a medicina assim como a fisio só se consolidou como área moderna de conhecimento em meados do século XX. Antes disso, era mais aparentada do misticismo que qualquer outra coisa. Foi o advento da ciência experimental moderna que criou a medicina e a fisioterapia tais como são hoje. Se o título “médico” já era usado antes, ele dizia respeito a um profissional que nem de longe tinha a ver com o que hoje se chama médico. Em termos de antiguidade, inclusive, muitos arqueólogos defendem que o uso de recursos como manipular ou aquecer o local de uma lesão precede o uso de ervas (medicamentos) ou invasão do corpo por instrumentos e a ginástica para fins de saúde remonta pelo menos à china de 3000 anos atrás, à grécia dos primórdios da civilização ocidental e por ai afora.

Sendo assim, nossa área não carece de tradição, muito menos de história.

Quanto a heterogeidade daqueles que buscam a fisio como profissão, bem, isto é um fato, mas como poderia ser um fato negativo? Múltiplas visões de mundo e origens distintas, ou seja, diversidade, cria condições para criação e evolução, não para confusão.

O problema da fisioterapia, o seu problema fundamental, é falta de auto-estima. No fundo no fundo, muitos, senão a maioria dos fisioterapeutas, acredita que a fisio é um primo pobre da medicina ou um seu derivado ou agregado. É um preconceito. É claro que a medicina tem um papel importantíssimo na área de saúde, sua sofisticação técnica é enorme, mas honestamente, de boa-fé, quem crê que a medicina por si só seja suficiente para resolver todas as questões de saúde? Que domine todos os aspectos da saúde humana?

Vejam, a necessidade de múltiplas disciplinas (profissões) não é um caso só na área de saúde. É um advento da complexificação técnica do mundo. Afinal, quantas engenharias existem? Inúmeras. Alguém poderia argumentar “pra quê” e que uma só daria conta de tudo. Uma grande e gigantesca área técnica que abraçasse tudo. E que seus profissionais despendessem uns quinze anos nos bancos da faculdade para se formar, já que teriam que aprender tudo sobre construção, eletrônica, mecânica, produção…

É claro que um segmento retrógrado médico, interessado nos lucros de se ter sempre um médico assinando tudo o que um fisio faz, tem muito interesse em professar idéias que vão na contramão da história do desenvolvimento técnico-científico das profissões, mas isso é apenas política, não história. Agora, que fisios introjetem esses conceitos falaciosos de dependência, isso é imperdoável, porque denota falta de conhecimento crítico de si mesmo e de sua profissão. Ou seja, insuficiência de formação. Nem todo o auto-preconceito vem dai, eu creio, mas boa parte sim.

O auto-preconceito está em coisas muito singelas do dia-a-dia. Ele só pode ser extinto por uma consciente conduta afirmativa, similar àquela que levou mulheres e negros a alcançar muito maior autonomia e projeção social (coisas que nem de longe já estão consolidadas, infelizmente). Com a fisio dá-se a mesma coisa.

Se você, quando é chamado a avaliar um paciente particular, pergunta: “onde está a guia médica”, está incorrendo em auto-preconceito. Não vou dizer que esta é minha opinião. Entendo isso como um fato! Se no SUS ou nos convênios a necessidade da guia médica atende a um interesse burocrático de controle de processos (que nós devemos lutar para mudar em nome da melhor eficiência em saúde mais do que em nome da autonomia profissional, mas isso fica para um próximo post…), na clínica privada isso não pode, não deve, não tem porque se aplicar. Muito simplesmente porque o diagnóstico fisioterapêutico é autônomo e independente do diagnóstico médico, segue outras premissas e leva a outras formas de tratar. Se, no melhor intuito de oferecer um tratamento integral ao seu paciente, você julgar que deve encaminhá-lo ao médico, para conjugar ações, isso é outra história. Ninguém está na dependência de ninguém, mas trabalhando conjuntamente para um fim. Julgar-se na dependência de um diagnóstico médico é auto-preconceito.

“Muitos dos procedimentos fisioterapêuticos são empíricos, ainda nâo têm base científica estabelecida”. Ok, isto é verdade. Vale para grande parte dos procedimentos médicos também. Basta ler as bulas de alguns remédios e verificar quantas vezes está escrito que “os mecanismos bioquímicos de ação desta substância ainda não foram plenamente estabelecidos…”. Base científica vem com pesquisa, que infelizmente ainda é um campo pouco procurado por fisioterapeutas (no Brasil, no mundo eu não sei). O tempo e a ciência trazem a justificativa da técnica. A prova de eficácia quase sempre vem antes dos principios de ação.

“Fisioterapeutas não podem pedir exames complementares”. Bobagem, claro que pode! Qual de nós que atua em ortopedia crê, honestamente, poder tratar fraturas sem RX? Sem conhecer a estrutura do membro lesado? Isso seria até má-fé! Quem, na neuro, nunca precisou de uma eletroneuromiografia? Se você está sendo cerceado e não pode pedir exames na sua clínica de convênio ou no SUS, porque o convênio ou o SUS não pagam o procedimento, isso não é uma limitação intrinseca da fisio mas do sistema! É preciso lutar para mudar o sistema (há, no congresso federal, leis tramitando neste sentido. Vide site do Coffito…). Mas você jamais deveria dizer para o seu paciente uma bobagem dessas, que fisios não pedem exames. Mesmo que você esteja apressado, cheio de trabalho e queira dar uma resposta curta para se livrar logo de um pedido que não pode atender. Honestamente, colegas, o que eu sempre digo, desde sempre, é: “sinto muito, mas aqui eles me limitam esse tipo de pedido de exames. Aqui eu não posso pedir”. É importante ressaltar a impossibilidade provisória ou local. Para quê queimar o filme da profissão criando no paciente uma falsa idéia de inferioridade? Na correria do dia-a-dia esse tipo de cuidado pode parecer bobagem, mas se a gente não cuida de nossa imagem, o que esperar do futuro? Como as pessoas vão nos valorizar? E, claro, para muito além da simples imagem, se a necessidade do exame existe, deve-se conseguir o exame. O sistema tem que ser pressionado! “Desculpe, mas não posso atendê-lo sem um RX, preciso desse exame, para saber qual a intensidade da força que posso aplicar no senhor, etc”. Conversa-se com chefia, insiste-se na necessidade, pressiona-se o SUS para mudar as regras, tudo isso a gente deve fazer.

Não para retorno imediato, mas a necessidade imediata acaba sempre sendo muito provisório, não é? E quando nos damos conta, o futuro chegou e não estamos nele, porque deixamos passar as lutas necessárias.

Alguém mais gostaria de citar exemplos de conduta afirmativa? Eu tenho outras idéias. Fica para um próximo post, que esse já está grande demais…

Abraços a todos.

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