De volta ao tema

por demanboro

Bom dia a todos!

Depois de um longo tempo ausente por excesso de trabalho em outras áreas, retomo o blog. E para recomeçar, gostaria de ressaltar o que eu acredito tenha sido a mensagem básica de todos os posts até aqui. Afinal, o que é e para que serve uma Filosofia da Fisioterapia? E por quê eu estou aqui querendo falar destas coisas?

Bem, filosofia da fisioterapia:

1) É a crítica contínua e racional dos fundamentos da profissão, de seus pressupostos, das idéias fundamentais que dão suporte e objetivo ao trabalho clínico e científico; Não é algo já feito, portanto, mas um processo e projeto contínuo de todos os profissionais;

2) É ultra-necessária, e não um penduricalho bonito e sem valor. Pensar os pressupostos da prática profissional é condição sine-qua-non para definir o que se deve conquistar em termos científicos, políticos e sociais. Envolve uma série de disciplinas, a maioria das quais este autor, como fisioterapeuta clínico e pesquisador em neurociências, não está profundamente apto a falar a respeito, porque não é, por exemplo, especialista em ética profissional ou bioética, ou epistemologista (estudioso dos principios que tornam possível o conhecimento em ciência). Mas, admitindo minha insuficiência nos campos fiosóficos específicos, não quero dizer que não me considero no dever e no direito de “levantar a bola” nestas questões. Ficam os especialistas em todos os campos filosóficos e científicos da fisioterapia permanentemente convidados a visitar este blog e estabelecer diálogo com este autor. Será um prazer e uma honra;

Reflitir sobre os fundamentos filosóficos da profissão serve para:

1) Pensar nossos campos de estudo e prática (são vários e mutáveis, em evolução, porque, como as outras profissões de sáude, somos uma ciência aplicada, que se vale do que as ciências básicas pesquisam para resolver problemas em seu campo. No caso da fisioterapia, não vejo definição de nosso campo de estudo e atuação mais ampla, e portanto, menos intransigente e vinculada a um determinado paradigma estanque, que a idéia de “Saúde funcional”);

2) Pensar a atividade política da profissão, entendida não só como aquela que defende nossos interesses mas, principalmente, como aquela que justifica continuamente nossos interesses perante a sociedade como um todo, por se tratarem de causas justas e que afetam a vida de todas as pessoas (discuti esse assunto no Post “Um problema de todo mundo”).

Por exemplo, porque não queremos uma Lei do Ato Médico que limite nossa atividade profissional? Por reserva de mercado? Muitos de nossos detratores diriam que sim. E é claro que nós temos nossos interesses financeiros também. Mas, se fosse só isso, nós não teríamos razão, a verdade não estaria do nosso lado. Mas nós temos razão: fisioterapeutas precisam de autonomia e autoridade científica e legal para realmente ajudar seus pacientes. Sem essa autonomia, o próprio fundamento de se “fazer fisioterapia” morre; Não existe profissão de nível superior sem autonomia e consequente responsabilidade cívil e legal por seus atos. O objetivo da política é conquistar e manter a autonomia, certo? A filosofia política da profissão subsidia esta busca;

3) Entender as responsabilidades profissionais; Entender seus papel no conjunto, as regras de sua atuação em equipe multiprofissional, o seu papel social, científico, a sua relevância para as ciências da saúde e as ciências biológicas, o seu papel para a construção de uma mundo mais ético, justo, sustentável e próspero (são condições fundamentais para se obter a saúde segundo a OMS, certo? Afinal, não se obtém um “estado de bem-estar biopsicossocial” sem isso…);

4) Pensar o futuro da profissão e dos profissionais;

5) Responder à mais difícil de todas as questões: por quê você, dentre todas as carreiras possíveis, escolheu justo essa? A resposta diz quem você é perante si mesmo e seus colegas, perante seu paciente…

6) Atender a inúmeros outros objetivos práticos que realmente não cabem em um único post. Mas, espero ter deixado claro, eu a considero importante. Ela é importante.

E, finalmente, por quê eu estou aqui falando disso?

Por muito tempo eu pensei que a fisioterapia não valia a pena. Durante anos, achei que tinha feito uma escolha errada e muito mais de uma vez pensei em mudar de profissão. Até que um dia eu entendi que o que eu não gostava não era da fisioterapia enquanto profissão (na verdade, eu me sinto muito bem cuidando das pessoas!) e nem enquanto campo do conhecimento (ela vai tão longe quanto qualquer ciência individual em seus horizontes e métodos). Eu não gostava mesmo era de como eu via muitos (é claro que não todos) de meus colegas vendendo barato sua autonomia profissional em troca de conforto e segurança e um contra-cheque no final do mês. Eu não gostava de ver a fisioterapia ser tratada pelos fisioterapeutas como “algo complementar”, que “o médico indica”. Não gostava de ouvir que o fisioterapeuta não diagnostica, que quem faz isso é o médico. E não adiantava dizer que cada profissão de saúde tem o seu diagnóstico e que o nosso é diferente do deles, específico de nossa prática, etc… sempre ouvia que, beleza, mas o deles tem que vir primeiro, para a nossa “segurança” (quer segurança, colega? Devia ter parado no segundo grau e se tornado um técnico. Necessariamente alguém estaria supervisionando o seu trabalho…).

Nunca entendi porque existem profissionais que não conseguem viver sem hierarquia, sem alguém “mandando” ou tomando as rédeas das decisões maiores e mais difíceis. Cansei de ouvir: “se você tem a guia médica, a responsabildiade é dele, foi ele quem encaminhou”.Cansei de ouvir bobagens. E achava que era culpa da profissão, até que comecei a ouvir outros profissionais de outras áreas.

Bem, é claro que eu era jovem e estava equivocado, a culpa do mal-estar não é da profissão é das pessoas que a fazem. E não é um problema de uma profissão específica mas de todas (nós vivemos num mundo cada vez mais utilitarista e, por que não dizer, de ética duvidosa…). Desistir daquilo em que você acredita por causa dos outros?

Não. E é por isso que estou aqui.

Um abraço a todos!

PS: Críticas são bem vindas. Não posso prometer ler e responder todas por causa do tempo escasso, peço perdão. Mas me empenharei ao máximo em responder. Reservo-me o direito de moderar apenas ofensas pessoais e linguagem de baixo calão.

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