O fisioterapeuta trabalha com átomos

por demanboro

Boa noite.

Vocês podem ter achado o título deste post nonsense. Eu acredito que ele faz todo o sentido.

Gostaria de falar sobre o que nós consideramos como “função” do fisioterapeuta, qual seu campo específico de trabalho, sua área de estudo e atuação, etc…

Para isso, acho importante começar pelas definições oficiais de nossa profissão. Vou focar nas duas mais importantes: a definição do COFFITO que é o órgão que regulamenta a fisioterapia em nosso país, e a definição internacionalmente aceita da World Confederation for Physical Therapy (WCPT), o órgão mundial de representação da profissão.

Para o COFFITO, a fisioterapia é definida como: “”Uma ciência da Saúde que estuda, previne e trata os distúrbios cinéticos funcionais intercorrentes em órgãos e sistemas do corpo humano, gerados por alterações genéticas, por traumas e por doenças adquiridas. Fundamenta suas ações em mecanismos terapêuticos próprios, sistematizados pelos estudos da Biologia, das ciências morfológicas, das ciências fisiológicas, das patologias, da bioquímica, da biofísica, da biomecânica, da cinesia, da sinergia funcional, e da cinesia patologica de órgãos e sistemas do corpo humano e as disciplinas comportamentais e sociais“.

Para a WCPT, em uma tradução livre à partir de seu website (os documentos completos e os links estão anexados ao final deste post): “a fisioterapia provê serviços para indivíduos e populações para desenvolver, manter e restaurar o máximo movimento e habilidade funcional ao longo do ciclo de vida. Isso inclui prover serviços em circunstâncias nas quais o movimento e a função são prejudicados pela idade, acidentes, doenças ou fatores ambientais. O movimento funcional é central para aquilo que se considera “saúde”.

Nas duas definições, “movimento” é uma palavra chave. A WCPT procura definir o que entende por movimento neste contexto. Para esta entidade “a capacidade de se mover é elemento essencial da saúde e do bem-estar. O movimento depende da função integrada e coordenada do corpo humano em diferentes níveis“.

Grifei “diferentes níveis” porque este é um conceito central para minha argumentação aqui, e muito bem colocado pela Confederação Mundial, a meu ver. Pois, como sabemos, os movimentos do corpo humano não se originam dos músculos, certo?

Sei, vocês estão pensando: “esse sujeito ficou louco!”. Não, não é verdade. Os movimentos do corpo humano têm origem, é claro, nos músculos ( e no sistema músculo-esquelético em geral, e no que comanda este sistema (o sistema nervoso central) e no que nutre este sistema, etc. O funcionamento do corpo só é didaticamente segmentável). Mas o movimento muscular se origina de sua atividade molecular, que por sua vez depende da atividade molecular no SNC e este depende da atividade molecular do sistema cárdio-vascular, etc. Mas, como também sabemos, as moléculas não são as entidades últimas a comporem o corpo humano (ou qualquer matéria). Os movimentos e interações moleculares provêm dos movimentos e interações atômicas, que por suas vez… (mas vamos parar por aqui e simplificar um pouco).

Resumo da ópera: O fisioterapeuta trabalha com átomos.

“Ah”, vocês vão dizer, “isso é petição de princípios. Sendo assim, todo mundo trabalha com átomos”.

Meia-verdade. Nem todo mundo. As ciências humanas e sociais se dedicam a ultra-estruturas que, se surgem ou emergem do funcionamento atômico, não precisam deles necessariamente para serem descritas. Mas, sim, todas as ciências naturais lidam com átomos e, sim, a fisioterapia é uma ciência natural, biológica, da saúde, da cinesia-funcional, etc…

E a fisioterapia, por usar métodos físicos e naturais para tratar, é profundamente enraizada na “física”, a mãe das ciências naturais (do grego “Physis”: “ciências naturais” ou “natureza”.

Talvez vocês achem que essas coisas são exaustivamente ditas e sabidas, mas o que a gente vê no dia-a-dia da profissão (e faço um apelo ao senso crítico de todos os colegas), são pessoas esquecendo-se que somos cientistas naturais que lidam com fenômenos e teorias, experimentos e previsões, e que nosso papel fundamental não é nos engajarmos em algum tipo de trabalho interprofissional (a área de saúde é por natureza interprofissional, porque seu objeto de estudo, a saúde humana, é complicado demais para ser tratado por uma única disciplina. E é por isso que existem fisioterapeutas, enfermeiros, nutricionistas, médicos, fonoaudiólogos, psicólogos, etc…). Nossa principal função (alguns vão me considerar um herege agora) não é curar ou reabilitar.

Nossa principal função, como cientistas naturais, é investigar o que leva à doença e à disfunção e descobrir novas formas, cada vez melhores, mais seguras e mais eficientes, de se lidar com elas.

Vocês podem estar pensando “bem, nem todo mundo quer ser um cientista. Eu quero ser um bom profissional”. E isso é um direito indiscutível. E eu mesmo, apesar de fazer pesquisa, tenho meus dois pés bem calcados na clínica. A questão não é essa. Se nós queremos nos dedicar a sistematizar e aplicar os conhecimentos que outros colegas obtiveram em prol dos pacientes isso não quer dizer que deixamos de ser cientistas. Se você questiona as técnicas que usa, adapta-as às suas necessidades, pesquisa as mais indicadas caso a caso, escolhe entre seu cabedal as que considera mais eficientes, vocês está, sem dúvida, fazendo ciência, ainda que num nível prático. Se você reporta suas dúvidas, participa de congressos e eventos ou fóruns, você está ajudando quem está no laboratório, que por sua vez irá te ajudar, no futuro. A clínica e o laboratório, a meu ver, são indissociáveis.

O crime aqui não é escolher um ou outro caminho. O problema é perder (ou nunca ter tido),a noção de nosso potencial e valor. Acharmos que somos executores e não cientistas (todo profissional de nível superior pertence a uma ciência, pura ou aplicada, como é o nosso caso, tanto faz). Acharmos que “recuperamos os movimentos que a pessoa perdeu” e mais nada. Isso é um tipo de pensamento reducionista que querem pra gente, vocês não acham?

Mas na verdade não é nada disso. O fisioterapeuta trabalha com átomos. A quantidade de respostas (e perguntas) que ainda devemos buscar é ilimitado. A natureza está ai para ser abordada (“desvendada”, eu acho, é muita pretensão). O que está em jogo é o bem-estar das pessoas.

Bem, isto é o que eu considero o objeto de estudo e trabalho do fisioterapeuta. O movimento humano, sim, e suas disfunções, mas num sentido muito, extremamente amplo. Não considero isso pedantismo. O ser humano tem necessidade de buscar o horizonte.

Um abraço e até a próxima.

P.S.: Seguem os links e documentos…

WCPT_Description_of_Physical_Therapy-Sep07-Rev_2

http://www.wcpt.org/pos

Anúncios