O peso das palavras

por demanboro

Caros, boa noite!

Tenho andado um pouco ausente. Peço desculpas. Vou procurar recuperar o tempo perdido.

E gostaria de começar pergutando aos colegas se não se acham ideologicamente coagidos pelas palavras que põem em nossas bocas (ou em nossas mentes, ou em nosso cotidiano).

Por exemplo, quando alguém fala as palavras abaixo para você, no seu contexto de trabalho ou fora dele, o que lhe vem à mente?

Reabilitação. Recuperação. Sequelas. Estimulação. Aptidão. Habilidades. Treino. Desempenho.

E agora, com as palavras a seguir:

Doença. Cura. Patologia. Tratamento. Dor. Sintoma. Vida. Salvar.

A primeira série de palavras evoca “fisioterapeuta”, certo? A segunda, “médico”.

Mas, prezados colegas, isto é falso, certo? Muito falso. Os dois conjuntos de palavras se referem a ambas as profissões. Tanto a fisioterapia quanto a medicina englobam aspectos do prevenir, curar e reabilitar, como, aliás, aprendemos na primeira semana de aula na faculdade (quase sempre).

Fisioterapeutas intensivistas lidam com a vida (tentam evitar a extinção do paciente). Médicos fisiatras reabilitam. Fisioterapia ortopédica de problemas agudos tem muito mais a ver com cura do que com reabilitação. Prevenir novas sequelas e agravamento dos quadros em patologias crônicas é um caminho preventivo secundário. Grupos de atividades cinesioterapêuticas orientadas para idosos podem prevenir artroses, osteoporose, descontrole de PA…

Aonde quero chegar?

As palavras têm peso. É através delas que se constrói uma ideologia (Marx e Engels, o manifesto comunista. Adam Smith e o liberalismo. Quase todo o século XX foi moldado por livros, palavras, conceitos…).

Aceitá-las é comungar de um tipo de pensamento e, de certo modo, aceitar um freio, um limite. Os limites, como sabemos, podem ser auto-impostos ou impostos de fora, ou os dois (quase sempre os dois).

Por isso, eu não gosto de dizer que sou um reabilitador (embora seja, algumas vezes). Não gosto que me rotulem “técnico” (embora use técnicas em meu trabalho).

“Profissional de saúde” é muito mais elegante e devia ser mais disseminado. Além do mais, técnicos, estritamente falando, são aqueles que fizeram uma formação específica de segundo grau, não profissionais de nível superior. Técnicos aplicam métodos que profissionais de nível superior desenvolveram.

O que um fisioterapeuta realmente faz?

Faça um exercício. Esqueça as noções pré-concebidas. Esqueça as palavras que habitualmente se usa para descrever a nós e nossa profissão. Esqueça “o guia do estudante”, a definição no manual da fuvest e até mesmo as definições oficiais (que são boas, mas provisórias, como toda boa definição deveria ser).

Pense a respeito: Quais são os verdadeiros conceitos que representam não só o que você faz, o que o seu trabalho representa para você, mas todo o seu contexto profissional hoje e amanhã? Não apenas o ponto de partida, mas também o de chegada. Pra quê serve “fisioterapia”? Para quê servirá dentro de cinquenta anos? Em outros termos: quê palavras você gostaria que a profissão de fisioterapeuta evocasse dentro de cinquenta anos?

Termino esse post citando algumas palavras que eu gosto. Que eu sinto que me representam e representam o que entendo por “Fisioterapia”. Deixo aos colegas o acréscimo de outras (ou a crítica das que vêm a seguir):

Saúde. Profissão da saúde. Cura. Prevenção. Reabilitação. Ciência. Patologia dos movimentos (em sentido ampliado. Vide próximo Post…).

Vida. Qualidade de vida. Alívio do sofrimento. Recuperação. Estudo dos modos de se mitigar o sofrimento humano. Estudo dos modos de se preservar a vida dos seres humanos.

Achou os dois últimos muito parecidos com o que se entende por “medicina”? Sim, é parecido mesmo. Talvez seja até igual. Nossas profissões almejam as mesmas coisas. Eu, pelo menos, não vejo por que deveria almejar algo menos do que tratar as dores e sofrimentos humanos em sua integralidade, dar às pessoas plenas condições de vida longa e com qualidade.

Terminando esse Post e voltando ao meu “mantra”: medicina e fisioterapia não são a mesma coisa. Mas não é em seu ponto de partida e de chegada que diferem.

Portanto…

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