Um problema de todo mundo

por demanboro

Um site ou blog temático, com foco em uma profissão, necessariamente tem um público restrito: os profissionais e interessados nesta profissão. E é esperado que os acessos sejam mais de especialistas que de leigos.

É previsível que blogs sobre cultura, música, gastronomia, cinema e arte, etc, sejam acessados por toda uma miriade de aficcionados, interessados, profissionais da área ou apenas curiosos: está entranhado em nós que as causas e coisas “sociais” dizem respeito a todos, que o território das “humanidades” diga respeito a todo mundo e o das tecnicalidades e cientificidades seja uma coisa restrita.

Minha opinião é que isso é uma falsa percepção. Tanto é assim que grandes revoluções culturais começaram em discussões teóricas e evoluiram para aplicações práticas movidas por acadêmicos em velhos laboratórios pequenos e empoeirados (licença poética…) que, no inicio, tinham intenções bem diferentes do que os rumos que sua invenções tomaram (a internet, por exemplo, que foi concebida para aplicações militares e acadêmicas, na época em que se chamava ArpaNet. Alguém vê algum aspecto da vida moderna desligado da internet hoje em dia?).

Por isso o título deste post: um problema de todo mundo. Um leitor eventual do blog pode considerar: “Bem, esse sujeito está falando de problemas da fisioterapia para fisioterapeutas. Isso é coisa deles. Não me diz respeito”.

Bem, saúde é um problema de todo mundo, certo? Todos se preocupam com saúde e diz-se na sabedoria popular que é um bem maior (“o importante é ter saúde”, “sem saúde não adianta ter dinheiro”, etc). Todos querem saúde de qualidade, um excelente atendimento pré-hospitalar, hospitalar, em clínicas, em convênios… Todos querem uma vida longa e de qualidade, e sem dor. É exagero dizer isso?

Mas como desconectar as discussões sobre melhora das condições de saúde geral da população, atendimento mais eficiente, um SUS que “funciona”, etc, das questões que atingem quem faz a saúde em primeiro lugar, ou seja, os profissionais de saúde?

Quando nós, fisioterapeutas, brigamos por cobertura irrestrita de sessões de fisioterapia nos convênios (essa batalha já foi parcialmente ganha na ANS, ainda que alguns convênios insistam em limitar o número de sessões e obriguem seus pacientes a entrarem na justiça para fazer valer seus direitos), quando buscamos impedir a formação de barreiras à nossa prática profissional por lobbies corporativistas ou insistimos na nossa proficiência técnica e científica em atuar em campos diversos da saúde, quando querem nos alijar deles, é porque sabemos, com base em nossa formação, nossa historia e na atividade de nossos cientistas, que podemos contribuir muito para a saúde das pessoas e que isso, o acesso a essa atividade clínica do fisioterapeuta, deve ser garantida à população, para que esta tenha uma atenção em saúde integrada, global, e eficiente. Sim, também se trata de defender uma posição no mercado de trabalho e respeitabilidade e boa remuneração, mas não só. Todo o profissional que se preze deveria pensar asssim e fazer que as pessoas entendam isso. Não é, afinal, apenas uma causa corporativa.

Os problemas da fisioterapia são um problema de todo mundo. Que os fisioterapeutas possam desenvolver seu trabalho sob as condições ditadas pelo desenvolvimento de sua ciência e de sua técnica e não sobre amarras exteriores impostas pela “lei do mais forte”, que possam sem ressalvas fazer tudo o que sabem em prol de seus pacientes, é um problema que afeta a mim, aos meu colegas e a toda a população brasileira.

Um abraço e bom domingo a todos!

 

 

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