Principios (3)

por demanboro

Boa tarde a todos. Sigo neste post o pensamento que iniciei nos anteriores. Falo sobre o conceito de “liberdade” e o que, a meu ver, ela implica na prática das profissões de saúde como a fisioterapia.

A revolução francesa e a independência Americana catapultaram os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade no mundo. Cada um deles é um conceito problemático em si (a liberdade individual deve ser pautada pela consideração à liberdade do outro, sob o risco de deturpar-se. Igualdade deve ser vista como de direitos e deveres, perante a lei e a sociedade, e não como um igualitarismo homogeneizador destrutivo, etc…), mas sua importância é inegável e sua aplicação traz grandes consequências.

Afinal, se defendo a liberdade no terreno profissional, defendo a autonomia não só dos fisioterapeutas diante de outros profissionais, mas de todas as profissões de saúde. Partindo do principio mais geral do direito à auto-determinação, é a história da profissão e sua evolução científica que define o que ela pode ou não fazer. Nenhuma força exterior deve se opor a isso. Mais: ninguém tem o direito de limitar o ponto aonde alguém pode chegar por seus próprios meios.

Esse principio tem mais consequências do que pode parecer à primeira vista. Pra começar:

A) Autonomia implica responsabilidade. Se sou autonomo, sou plenamente responsável pelos meus atos. Traduzindo para a prática profissional: o fisioterapeuta não divide com ninguém a responsabilidade por seus atos terapêuticos, por seus erros e acertos na profissão. Por mais que a multi-profissionalidade seja um fato (e muito bom, eu acredito, quando é um conceito aplicado pra valer e não uma desculpa para hierarquizações entre profissionais), ela não divide responsabilidades. Por isso, o encaminhamento de outros profissionais não me exime da responsabilidade por meu paciente.

Autonomia não é só uma palavra bonita. Quem quer autonomia precisa assumir a responsabilidade integral pelo caso que tem em mãos e ter instrumentos diagnósticos precisos (dentro de sua especificidade? Ok. Mas tem que saber o quê e como tratar, e reencaminhar se for o caso);

B) Autonomia pressupõe os meios de exercer a liberdade com responsabilidade. Sendo assim, o fisioterapeuta tem que ter conhecimento suficiente para entender as necessidades de saúde do paciente de forma integral e, inserido pra valer no sistema de saúde, interagir em todas as frentes com profissionais de outras áreas, para resolver o caso em questão. Ou seja: tem que saber identificar até mesmo o que não está em sua alçada tratar. E saber encaminhar (como e para quem). Deve ter autonomia pra isso. E vou mais longe: deve ter capacidade e liberdade de pedir os exames que julgar necessários à completa elucidação do caso (está previsto em nosso código de ética, embora de forma meio enviesada). Ou seja, resumindo, tenho convicção de que o fisioterapeuta verdadeiramente de “nível superior”, digno deste nome e dessa posição, não pode se furtar a:

1-Ampliar, complementar ou até sugerir revisão do diagnóstico de outros profissionais (se não fosse para obter o melhor diagnóstico, nnovamente, não seria necessário vários profissionais diferentes com olhares distintos). Esse direito, claro, não é exclusivo dos fisioterapeutas mas de todos os profissionais de saúde. Numa multidisciplinaridade de fato, não de fachada, isso não deveria ser interpretado como “se meter na área alheia”, até porque, reitero, cada um é responsável pela sua parte integralmente (sei que muitos irão refutar: “isso é bonito de dizer, mas na prática…”. Sim, estou ciente que há casos e casos, e situações muito polêmicas e complicadas, não nego isso. Mas estou falando aqui de principios gerais…);

2- Solicitar e interpretar exames laboratoriais e de imagem. Contra o argumento: “eu não estudei isso na faculdade” eu contra-argumento o seguinte: não importa, se você quiser viver a sua profissão integralmente vai precisar disso. Corra atrás, é o seu dever. Muitas faculdades têm imaginologia, radiologia e afins nos currículos, o que é ótimo. Algumas, infelizmente, não têm (deveria ser diferente). Mas isso não exclui sua responsabilidade de aprender a usar este recurso. Há muitos cursos extra-curriculares por ai. Um dia, se todos nós nos importarmos e brigarmos por isso, estará nos curriculos de todas as escolas de fisioterapia. Outro argumento: se você considera (como eu espero que considere) que não dá pra atender um P.O. de fratura sem ver um RX recente, ou que ENMG e exames eletrofisiológicos musculares, ou espirometria são do “métier” dos fisioterapeutas, porque não os demais? Por que não são “funcionais”? Ora, a função nunca vem desligada da estrutura. Uma análise da função exige dados sobre estrutura, ultra-estrutura (citohistologia) e alterações patológicas dos tecidos. Na prática, nós vemos isso todo dia;

3-Encaminhar e contra-encaminhar para qualquer outro profissional de saúde. Sei que a maioria dos colegas tem essa prerrogativa em seus trabalhos, em graus variados (pode encaminhar pra qualquer um, só para orotpedista ou neuro ou pneumo, conforme a área, etc), mas muitos não a têm, tolhidos por uma parte do sistema de saúde que, às vezes, age como se a hierarquização dos sistemas de saúde à partir do médico fosse um fato e não uma petição polêmica e pretensiosa de determinada classe contra as demais. Mas o “direito de encaminhar” não é relativo. Ele está implicito em se ter autonomia e responsabilidade;

C) Ter liberdade pressupõe lutar por ela. Conforme o provérbio latino: “se queres a paz prepara-te para a guerra”. Claro que não estou falando de violência de forma alguma. Mas é só consultar a história. Qualquer história. De profissões, de povos, de nações… Nenhuma liberdade nunca foi concedida livremente. Mesmo Gandhi, a seu modo, lutou (e como!). Se nós queremos ter autonomia profissional precisamos continuar afirmando que podemos tê-la e usando todos os recursos (jurídicos, estatutários, legais, políticos) para obtê-la.

Para encerrar, afirmo que não sou contra os médicos (é claro) muito menos contra a medicina (também considero óbvio). E que não advogo nenhum tipo de conflito aberto na área de saúde, que não seria bom para ninguém. A medicina é uma nobre profissão tanto quanto a fisioterapia e conheço dezenas de excelentes médicos que desejam viver em harmonia com as demais profissões de saúde. Este blog, enfim, de forma alguma é contra a medicina (reitero, isso tem que ficar bem claro), mas absolutamente contra que os fisioterapeutas e a fisioterapia “abaixem a cabeça” para determinado “Establishment” médico hierarquista e autoritário, sim! Não é a nossa profissão apenas que está em jogo, mas a saúde da população como um todo.

Afinal, nós fisioterapeutas concordamos que sem fisioterapia não há saúde de qualidade, certo?

http://www.wcpt.org/

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