Diagnóstico: as guias médicas

por demanboro

Acredito que a grande maioria de nós considera o diagnóstico preciso como peça chave, fundamental, do processo terapêutico. A avaliação é o principio, o meio e o fim do processo de recuperação e cura. Seu estudo tem um peso forte em nossa formação (e talvez devesse ter o maior peso). Inclui técnicas de anamnese, inspeção, palpação, teste especiais, medidas antropométricas, cinéticas e cinemáticas, entre outros recursos. Mesmo tendo a importância que tem, ainda é um conceito problemático para a maioria dos fisioterapeutas, principalmente em suas relações transdisciplinares. A capacidade e o dever de diagnosticar está, em minha opinao, na base da discussão daquilo que se convencionou chamar de “lei do ato médico” e que a maioria de nós considera limitador do exercício profissional. Mas o que mais ouço é que a lei do ato médico busca restringir a prática de ações legítimas do fisioterapeuta. Isto porque muitos de nós, inconscientemente e apesar de um discurso diferente, ainda entendem a fisioterapia apenas como “práxis” (“modo de fazer”, a grosso modo).

Mas não é esse o cerne do problema. As questões (cerceamentos) que esse segmento médico nos propõe são outras (e digo aqui “segmento” porque conheço médicos, e não são poucos, que são contra a lei do ato médico da forma como ela é colocada contra as demais profissões de saúde. De igual modo, há, não tenho dúvidas, segmentos fisioterapêuticos e nas demais profissões de saúde que, sem sequer se darem conta, agem à favor de tal lei).

Para começar, o argumento mais usado contra a prática de certos atos terapêuticos pelo fisioterapeuta (digamos no exercício da acupuntura, por exemplo, onde a polêmica é mais forte) reside na crença destes segmentos (sim, crença) de que o fisioterapeuta não exerce o diagnóstico de patologias e, portanto, ao receber pacientes sem uma “guia médica” ou exercer uma atividade como a acupuntura de forma autonoma, estaria mascarando um sintoma que poderia ocultar uma doneça de base grave que não foi “corretamente diagnosticada”. O que pressupõe muitas coisas se formos pensar: Que fisioterapeutas não sabem identificar problemas de saúde (nosso diagnóstico seria “fraco”), que sempre seremos dependentes de encaminhamento médico (hierarquia), que alguns procedimentos sempre nos serão vetados, etc. Daí para a conclusão de que fisioterapeutas apenas “aplicam métodos e técnicas” e que devem estar sob supervisão médica (fisiatra?) vai um passo pequeno (e concordo que nossa legislação não ajuda. O decreto lei 938/69 nos deixa neste limbo e dá margem a essa interpretação. Mas, por favor, essa lei foi criada em 1960! Nada mudou na profissão deste então?).

Bem, ai reside quase todo o problema. E a confusão. Inclusive entre fisios. Pra começar: não receber clientes sem guia médica é uma normativa do SUS e dos convênios médicos. Atende a questões financeiras e ideológicas da gestão de saúde no Brasil, mas não implica necessariamente que essa exclusão se assente em bases “de fato e de direito”. Basta ver, por exemplo, que em países como Canadá e Austrália, o fisioterapeuta pode ser profissional de primeira entrada dos pacientes. É verdade que nestes países o consultório particular é mais disseminado, configurando uma relação econômica terapeuta-cliente diferente da que estamos acostumados a ver por aqui.

O fato das relações terapeuta-paciente não serem hegemônicas no mundo já diz muito. Mas a realidade diz mais. O que quero dizer? Ora, o que todo fisioterapeuta está cansado de saber (ou deveria estar): o diagnóstico fisioterapêutico tem a mesma estrutura que o do médico (claro, claro, há especificidades. O nosso é “cinesiológico-funcional, eu sei. E nem estou dizendo que não deveria haver, o que seria um absurdo. Se fosse assim, não precisaríamos de duas profissões, só de uma). Porém dizer que nossos diagnósticos têm especificidades não implica que um seja melhor que o outro. E muito menos implica que fisioterapeutas não possam reconhecer problemas de saúde que não estão em sua alçada tratar ou, o que é mais comum, que não podem ser tratados por apenas um profissional, e que portando é preciso fazer contra-encaminhamentos. Ora, essa deveria ser a boa transdisciplinaridade em saúde: profissionais encaminham para profissionais, com o intuito de prestar a melhor e mais completa assitência a seus pacientes (há um fator econômico importante também, quando mais profissionais de diferentes áreas interagem em diagnóstico e encaminhamento, mas deixemos para falar disso no futuro).

Voltando a “a realidade diz mais”… Eu sei o que tenho feito. Vocês, colegas, não o sabem também? Estou falando de bons diagnósticos, é claro. Quantas vezes em suas avaliações cinesiológico-funcionais vocês não encontraram problemas maiores no paciente do que aqueles diagnosticados no inicio e não se viram na obrigação de reencaminhá-lo ao médico com uma carta, pedindo reavaliação, ou a outro especialista (quando o sistema permite) por entender que realmente há o problema diagnosticado, mas também há esse outro (e isso porque você pôde fazer uma excelente anamnese?). E quantos destes pacientes não se tornaram pacientes da fisioterapia num contexto mais amplo, sendo atendidos em toda a complexidade de seu caso e não só naquilo que estava prescrito na guia original?

O diagnóstico fisioterapêutico é assunto para dezenas de posts e para muita discussão. Termino esse por aqui. Voltarei a isso com certeza.

Um abraço e um bom dia a todos.

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