Não está tudo bem

por demanboro

Hoje queria dizer que não está tudo bem. Não me refiro a minha vida pessoal, que corre muito bem, na verdade, e nem à minha atividade profissional que, mesmo com alguns percalços, segue bem satisfatória.

Refiro-me, é claro, à fisioterapia enquanto profissão.

O que seria meio fácil de supor. Ninguém começa a escrever um blog, emitir opinião e expor crítica, se acha que está “tudo bem”. A menos que a proposta seja meramente técnica, o que não é o caso.

Aliás, esse é o primeiro motivo porque acho que não está tudo bem com a fisioterapia: a técnica.

Oh, não, eu não acho que a técnica fisioterapêutica seja ruim. Pelo contrário, ela é excelente. Podemos tratar distúrbios, doenças e “mau-funcionamento” em praticamente todas as áreas da saúde humana. A fisioterapia tem avançado e atingido um grau de sofisticação técnica e tecnológica que lhe permite “estender seus tentáculos” em quase tudo que se faz em saúde, seja como recurso principal de tratamento, seja como mais um numa cadeia de tratamentos somados para um resultado final (e nunca como “coadjuvante”. Esta palavra não quer dizer nada e só expõe preconceito. Discordam? Pensem bem, um exemplo simples: tratamento de lombalgia, aquela mais básica, postural, de sobrecarga… Anti-inflamatórios ajudam? É claro que sim. Mas podem prevenir novos episódios? Podem corrigir os fatores biomecânicos de base? Nesse caso, quem é “coadjuvante” de quem?”).

O problema que eu vejo com a técnica é que nós devíamos: 1) Não nos ater a ela como meta e; 2) Tentar sempre superá-la. E o motivo para isso é muito simples. Quanto mais nos dedicarmos a simplesmente aperfeiçoar e melhorar a técnica menos faremos parte do processo científico, que é a razão última de toda “ciência de saúde”. Vamos lembrar: as ciências da saúde, a fisioterapia inclusa, fazem parte das ciências naturais, biológicas. E todas elas são ciências aplicadas (seu objetivo é aplicar os conhecimentos que obtem ao tratamento e à cura dos problemas que afligem o ser humano) mas não existe ciência aplicada sem ciência pura, o que também é notório.

Dito isso, parece que estou chovendo no molhado, mas eu não acho. Os problemas da fisioterapia podem ser óbvios mas suas causas nem tanto. Nós nos queixamos da ingerência médica e da hierarquização nos sistemas de saúde, mas não nos sentimos, muitas vezes, cientificamente aptos a confrontar a opinião médica (isso sem falar nos que acham que não nos compete fazer isso, o que implicitamente significa colocar o médico em um patamar acima da fisioterapia, e não faz sentido defender autonomia neste caso, certo?).

O problema é da formação do fisioterapeuta? Está no curriculo? Nos bancos escolares? Bem, talvez. Mas esta questão que todos nós achamos sensível (ou devíamos achar) não muda do dia pra noite e sem muita luta política. Também acho que na formação do fisio devia ter muito mais fisiologia, patologia e, principalmente, física (claro, física! Nós somos terapeutas físicos, certo?). Só que os bancos escolares não limitam, ou não deviam limitar, o desenvolvimento do profissional por seus próprios meios, e muito menos o da profissão. Eu estou falando do seguinte: não gosto, não aprovo e nunca vou concordar quando um fisioterapeuta diz: “Os fisioterapeutas não estudam para fazer isso e /ou não sabem fazer isso, etc”. Bem, talvez você não saiba fazer isso. E talvez a fisioterapia ainda não faça isso. E talvez certos lobbies pressionem para que não façamos. Mas quando nosso próprio mundo interior nos limita, qual é a saída? Não, não estou advogando que os fisioterapeutas mediquem ou façam cirurgia. Nossos métodos são outros, sempre foram, historicamente, fundamentalmente. A questão é: se nossos métodos próprios podem ser aplicados a “N” coisas na área de saúde, por quê não estudar esses caminhos? Por quê não desbravá-los?

Nenhum conhecimento técnico nos levará a isso. O pensamento e o desejo de fazer ciência sim. A técnica é apenas uma expressão do fazer científico. Ou nos assumimos como cientistas ou ficamos “no nosso lugar” (o lugar em que nos querem).

Obrigado a todos que tiveram paciência de chegar até aqui. Continuo no próximo post!

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