fisiopatia

Filosofia da fisioterapia

Neurociência e educação

Boa noite!

Para quebrar o gelo de mais uma longa ausência do blog, resolvi postar o arquivo power point de uma palestra que ministrei em 2011 para a prefeitura municipal de Barueri – secretaria de Educação à respeito das interfaces entre neurociência e educação.

Aqueles que seguem o blog devem saber que neurociência é a minha área de estudo e pesquisa desde o mestrado (estudei Psicologia da Saúde, na linha de pesquisa de psiconeurofisiologia). Atualmente, faço pesquisa clínica no laboratório de neuroestimulação no Hospital das Clínicas. Está em meus planos, para breve, publicar no blog minha dissertação de mestrado (ainda estudo a melhor forma de fazê-lo…).

A apresentação em anexo neste post traz bastante informação escrita. Foi feita assim propositadamente, para publicação no site da prefeitura. A idéia era trazer o máximo de informação para o público de professores dos ensinos fundamental e médio da rede municipal sobre alguns principios básicos de neurodesenvolvimento e a aplicação prática de conceitos das neurociências e ciência cognitiva ao manejo de situações em sala de aula, como métodos para melhorar a atenção dos alunos e a compreensão de conteúdos, por exemplo.

Como toda apresentação informativa, alguns dos conceitos apresentados estão sob discussão na literatura, portanto, muitas informações podem já estar, nesta altura do campeonato, desatualizadas ou terem sido desacreditadas. Eu ressaltei a efemeridade do conhecimento científico e sua contínua revisão durante a palestra. É um assunto que pode render muita conversa! Mas fica pra depois… No momento, aconselho a meus leitores um olhar crítico sobre as informações.

Por último, não há uma lista extensa de referências, só os sites de pesquisa onde obtive parte das informações.

Espero que seja útil!

Obrigado, abraços e até muito breve:

neurociencia-na-educacao

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Mercado de trabalho e educação

Boa tarde a todos:

O post de hoje não diz respeito à fisioterapia diretamente. O texto em PDF em anexo, um resumo de entrevistas com economistas do grupo “Freakonomics”, fala sobre a educação superior de forma geral e apresenta dados muito interessantes para qualquer um que esteja pensando em fazer vestibular e, neste contexto, tem tudo a ver com aqueles que se sentem vocacionados para a fisioterapia.

Os entrevistados desmistificam muitas questões sobre o valor do ensino superior. Não afirmam que ele garante o sucesso, mas expõem bem seu papel no mundo de hoje. Vale a pena ler.

O mercado valoriza a educação, afirmam especialistas – Freakonomics – UOL Notícias

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Há que se pagar o preço

Bom dia a todos:

O que leva uma pessoa a escolher uma profissão? Vocação? Um projeto de futuro? Paixão por um determinado assunto? Sentir-se bem em determinados ambientes? Desejos de sucesso?

É provável que tudo isso junto contribua em maior ou menor grau para a escolha decisiva. Cada pessoa, considerando sua formação, história, aptidões e tendências naturais, irá pôr mais ênfase em um ou outro motivo, mas certamente irá considerar todos, em algum grau.

Algumas coisas, eu creio, nunca ficam de fora: por mais que ideais e vocação estejam sempre em pauta, ninguém que procura uma formação de nível superior imagina ou deseja viver uma vida monástica (aquela velha lenga-lenga de que “essa profissão X é um sacerdócio, etc). Todo mundo busca sucesso financeiro. Tirando os que realmente têm vocação para sacerdócio, todos os outros querem uma vida confortável, sem privações e com a possibilidade de viver todas (ou a maioria) das boas experiências que desejar. Isso, é claro, não implica necessariamente em ser rico, mas em ter o suficiente (ainda que “suficiente” seja algo bastante relativo, é claro). Outra coisa que todo o ser humano busca é reconhecimento. dentro de nosso grupo social, talvez transitando entre diversos grupos, todos nós queremos ser reconhecidos pelo que fazemos, que as pessoas reconheçam o valor de nossos esforços e o benefício que trazemos à sociedade. Alguns chamam isso de “status”. Que seja, mas nada mais é que o desejo natural e saudável de ser amado e respeitado, aplicado à vida em sociedade

Alguns economistas têm pontuado que profissionais que trabalham com coisas em geral ganham mais que profissionais que trabalham com gente, com exceção da medicina, que continua sendo a profissão mais bem remunerada em termos relativos (se considerarmos apenas a graduação e não o cargo ocupado ou carreiras militares e de estado).

Em geral, profissionais de humanas são os menos bem remunerados. Mas, a meu ver, a importância não é menor. Aliás, acredito firmemente que as profissões de nível superior podem todas ser colocadas no mesmo patamar em termos de valor real para a sociedade, como já defendi em post anterior. Claro que isso não quer dizer que a sociedade comportaria um milhão de filósofos, por exemplo. Lógico que não haveria trabalho para todos. É preciso que haja diversidade e ponderação. O número de engenheiros deve ser maior que o de economistas, por exemplo. Mas isso não porque a engenharia é mais importante que a economia mas simplesmente porque é mais generalista, afeta mais coisas, está mais diretamente ligada a produção e consumo, etc.

Considerando o que foi dito, chegamos aos problemas da fisioterapia, alguns mais do que bem conhecidos pelos profissionais.

Só para chover um pouco no molhado: há profissionais demais hoje em dia, concentrados nos grandes centros urbanos, particularmente na região sudeste do Brasil. Não há mercado de trabalho para todos. A fisioterapia é menos generalista e mais específica que a medicina. Isso não diminui seu valor mas limita a quantidade de profissionais necessários à sociedade.

Será que ninguém nos últimos anos sabia disso? Por quê se permitiram abrir cursos em cada esquina? Onde está a monitorização social e governamental da educação e das metas de empregabilidade? Nossas insitutições de classe estiveram dormindo? Todos nós profissionais estivemos dormindo?

Não devemos culpar só uma coisa. Tudo contribuiu. Alguém poderá dizer que a culpa é do capitalismo, que são as leis de mercado, oferta e procura, que nosso modelo “capitalista” não põe freios em nada, que permite que os atores sociais em busca de lucro esgotem seus recursos (uma profissão nada mais é que um recurso) em busca do lucro certeiro.

Houve um boom da fisioterapia, um fenômeno em que diversos novos ingressantes apaixonaram-se talvez erroneamente por uma simples idéia da profissão sem conhecê-la a fundo ou se deixaram levar por uma mitologia forjada em torno da idéia “fisioterapia”. Devemos culpar essas pessoas? Claro que não. Por que é sonho e ideal o que leva os jovens a um determinado rumo. Foi assim comigo e é assim com todo mundo. Também não há tanta gente com real vocação para medicina, mas todo mundo quer ser médico. Não é um fenômeno puramente racional. Aliás, a vida humana não é puramente racional.

Por isso acredito que culpar, genericamente, um tal de “capitalismo” também é bobagem. Independente do sistema de trocas e fluxo de bens e serviços escolhido por uma determinada sociedade, os fatores emocionais e ideológicos estarão presentes. Há exemplos demais de erros de avaliação à respeito de como funciona a alma humana em regimes que são ou foram socialistas, e suas nefastas consequencias, para que precisemos citar. Por outro lado, há sociedades modernas que não admitem, mas na prática são socialistas (social-democracia é socialismo com mercado) e que dão super-certo, como é o caso dos países escandinavos todos.

Ideologias e sistemas econômicos todos se equivalem se os indivíduos se afastam do equilibrio. Se resolvem tudo pela razão pragmática ou se põe suas crenças pessoais como verdades absolutas.

Os problemas da fisioterapia são os problemas do Brasil, de cada brasileiro, de cada um e todos os indivíduos dessa sociedade. Assim como os problemas da profissão de advogado ou contador são também problemas de todo mundo. Está na hora de parar de pensar nas profissões apenas como meios que as pessoas escolhem para ganhar um parco dinheiro honesto e que só dizem respeito aos próprios profissionais. Uma sociedade é formada por indivíduos em primeiro plano e, depois, pela forma como estes indivíduos se associam (isto é política). A associação fundamental é a família. A segunda associação mais básica é a profissão e a divisão concomitante da força de trabalho para que cada um exerça um papel útil para a sociedade. Todas as demais instituições derivam disso.

E como podemos chegar nesse equilibrio? É certo que a resposta não é simples. Mas acredito e defendo que nos livrarmos de preconceitos é o primeiro e grande passo. Idéias pré-concebidas têm origem nos becos mais escuros da consciência humana. Não se assentam em fatos mas em desejos torpes de exclusividade, hierarquia, superioridade (ser considerado melhor que os outros, mandar nos outros…). O racismo é um preconceito por quê? Bem, a ciência sequer reconhece o conceito de raças aplicada a seres humanos…

O primeiro link abaixo remete à pesquisa “Você na universidade” da FGV e permite simular aspectos financeiros e de colocação profissional relacionados a sua carreira escolhida ou pretendida. O segundo é um artigo de um colunista da folha de São Paulo sobre universidade e trabalho. Vale a pena ver. Mostram onde estamos mas não para onde vamos. Mesmo assim, conhecer é o primeiro passo para desfazer preconceitos.

Bom fim de semana!

http://www.cps.fgv.br/cps/bd/educ/simula/index.htm

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/49296-universidade-e-trabalho.shtml

Consulta pública – Código de ética

Caros(as) Colegas, boa noite:

Este é um post rápido. O COFFITO está iniciando consulta pública por meio de seu site institucional à respeito de mudanças no código de ética dos fisioterapeutas. É um assunto sensível e importantíssimo que diz respeito a todos, uma vez que a ética profissional estipula nossos limites comportamentais, direitos e deveres, diante de nossos pacientes, colegas, demais profissionais de saúde e sociedade em geral.

Li a proposta do novo código (em anexo neste post) e achei que ela supre várias áreas antes em descoberto, como a ética dos fisioterapeutas em pesquisa científica, por exemplo. Fiz uma sugestão via site do COFFITO (link ao final deste texto): um acréscimo num parágrafo à respeito dos deveres dos fisioterapeutas para deixar claro nossa responsabilidade em agir pela preservação da vida em situações de urgência.

Acredito que outros parágrafos possam e devam ser melhorados e aí entra nosso papel em ler e enviar sugestões ao conselho.

Obrigado! Vamos participar!

Segue o link:

http://www.coffito.org.br/formulariopesquisaetica.asp

Cdigo de tica Fisio__CONSULTA_PBLICA2012

 

 

 

Hipóteses veladas

Bom dia e bom feriado a todos!

Tenho estado sem publicar há algum tempo. Compromissos diversos com trabalho e estudo me impedem de ter a constância que eu gostaria, não só no blog mas também em vários outros projetos intelectuais paralelos que me são caros. Não posso dizer que seja algo ruim. Pelo contrário. Não encontro tempo para escrever porque estou envolvido com a clínica, a pesquisa, o cotidiano e muitas coisas que, afinal, são a matéria daquilo que é importante falar e escrever.

Hoje, não tenho um tema específico para o post. Resolvi fazer uma espécie de balanço deste blog desde sua concepção. Para isso, pensei em falar nas “hipóteses veladas”.

Quando iniciei  o blog, meu interesse era abordar criticamente temas importantes da prática profissional que não estão diretamente ligados à ciência e técnica em si, mas ao “fazer fisioterapia” enquanto profissão, modo de atenção à saúde das pessoas, prática assentada em bases filosóficas muitas vezes conflitantes.

Neste um ano e pouco de existência do blog tive pouquissimos comentários e apenas uma polêmica expressiva, ao defender minha opinião sobre a não-hierarquização dos diagnósticos na área de saúde e a importância e auto-suficiência do diagnóstico fisioterapêutico, cinesiológico-funcional.

Algumas pessoas entenderam minha posição como anti-médica, coisa que ela não é. Eu nunca poderia ser “contra” a medicina ou qualquer outra área de saúde. Além de absurdo, isto deporia contra minhas próprias concepções.

O que sou é a favor de uma fisioterapia plena, autônoma, independente, auto-suficiente e com prerrogativas isonômicas dentro da área de saúde: encaminhar para quem julgar importante, pedir exames, ganhar o mesmo salário que se paga a outros profissionais por ter o mesmo mérito, ser responsabilizado pelos erros de igual modo e receber o crédito dos acertos da mesma maneira, etc.

Porém, como nós sabemos, defender a autonomia e isonomia das profissões de saúde regulamentadas de nível superior gera muita dissonância, muita polêmica e dá margem a contraditórios muitas vezes virulentos e com ataques pessoais, não apenas por parte daqueles que têm interesses contrários a nossa, digamos assim, “emancipação”, mas também dos próprios profissionais fisioterapeutas. Isso acontece por causa das hipóteses veladas.

A história da fisioterapia, como toda  a história humana e das profissões, é dinâmica e aberta, comportando diferentes estágios, mudanças de rumo, interpretações divergentes, idéias contraditórias sobre o “quê” e o “como” que não se anulam, mas convivem e se chocam umas contra as outras, cada uma buscando prevalecer e ter a palavra final. É uma contínua dialética de opostos e, às vezes, de extremos.

Um exemplo na história geral seria o eterno embate esquerda x direita, democracia x plutocracia, etc…

Em outras palavras, não existe uma verdade última, petrificada, na qual todos devem acreditar porque é a verdade e pronto. Aliás, isso de uma verdade definitiva não existe mesmo. É fácil e útil querer acreditar que sim. Facilita as coisas, desobriga de ter que pensar. Basta você dizer que “médicos fazem isso, fisioterapeutas fazem aquilo…” ou “medicina é cura, fisioterapia é reabilitação”, botar uns rótulos nas coisas e viver segundo esses rótulos. Embora seja irreal, isso é um porto seguro que nos tira a responsabilidade de lutar e brigar eternamente (porque é uma luta inglória e eterna) por novas posições.

No entanto, a história mostra que tal atitude dogmática costuma ter um preço: os fatos vêem e atropelam aqueles que acreditavam que tinham  tudo sob controle. Em outras palavras: quem fica parado é poste! E, falando ainda mais claramente: fazer as coisas de um modo que deixe todo mundo feliz em seus papéis tradicionais, sem “mexer com quem está quieto”, não garante segurança nenhuma a ninguém. Nem os médicos do ato médico terão a área de saúde a seus pés se “colocarem em seus lugares” os demais profissionais de saúde nem nós estaremos bem se aceitarmos perdas em troca do conforto de uma “área bem delimitada”. Outra coisa que parece ser uma regra da história: os espaços vazios sempre são ocupados…

Se existe uma idéia geral neste blog, portanto, é que eu acredito que a fisioterapia deve avançar até os seus limites mais extremos, por uma busca ativa do novo, uma exploração de suas possibilidades não apenas teóricas mas também práticas. Que nós devemos querer sempre mais. E eu acho que isso não é contraditório com uma área de saúde integrada, humanística e com diferentes atores desempenhando diferentes papéis de forma intercomplementar e com poucos pontos de conflito. Acho uma “hipótese velada” altamente discutível a idéia de que só pode haver uma área de saúde com estas características se cada um tiver seu campo bem delimitado. Um “campo bem delimitado” nunca existiu em nenhuma atividade humana. Basta ver o que acontece com físicos e químicos, por exemplo…

Outras “hipóteses veladas” de uma verdadeira filosofia da prática, que muitos de nossos colegas usam no dia-a-dia porque aprenderam na faculdade, ou no primeiro emprego, ou em livros de autores engajados (acreditem, todo mundo é engajado com alguma coisa) são, por exemplo, as idéias de que fisioterapia e reabilitação são sinônimos, que a área de saúde não anda sem um profissional “superior” que supervisione todos os outros, que é preciso limitar os campos de atuação por meio de leis para garantir nosso “espaço”, que a fisioterapia não pode ser sistêmica (essa é uma das piores, a meu ver), que somos e sempre seremos profissionais dependentes da indicação de outros profissionais, etc…

Às vezes o profissional se diz contra todas essas hipóteses e, no seu dia-a-dia, age contra aquilo mesmo que diz acreditar, quando por exemplo diz a um paciente que não pode atendê-lo sem guia médica. Digamos que ele realmente não possa, porque é uma exigência do setor. Ok, basta dizer que não pode atendê-lo porque ali, naquele lugar, é uma exigência. Não incutir no paciente que aquela é uma regra verdadeira por principio. “Ah, as pessoas não entendem essas coisas!”. Entendem sim. Temos que parar de achar que as pessoas são bobas ou que não adianta explicar porque  têm “baixo nível de instrução”. Isso é preconceito. Um preconceito igual ao que diz que “por principio, fisioterapeutas são vinculados à medicina” ou aquele outro que diz que “todas as profissões de saúde vieram da medicina e existem para ajudá-la”.

Essa última não é verdade mesmo. Eu já falei sobre isso neste blog. Mas não é necessário argumentar demais para defender este ponto. Basta lembrar que antes de Pasteur não se sabia a respeito de germes, não havia pensamento causal sobre as doenças, e isso foi no século XIX. Esse foi o marco da medicina moderna, mais ou menos a mesma época em que a ginástica terapêutica ganhava corpo como prática de saúde na Suécia (o inicio da fisioterapia moderna). A medicina e a fisioterapia estabeleceram diferentes graus de relacionamento e dependência ao longo do tempo? Sim, mas isso não implica que nasceram juntas. A história da psicologia é a mesma: não “nasceu” da psiquiatria mas da filosofia racional que remonta aos gregos, tendo se tornado uma disciplina autônoma mais ou menos na mesma época em que todas as outras ciências foram se consolidando: a incrível segunda metade do século XIX…

Conhecer não traz a verdade mas nos afasta de preconceitos.

Grande abraço e até a próxima!

Recomendações do Conselho Nacional de Saúde sobre a acupuntura

Bom dia pessoal!

Hoje, dia do trabalho, um post bem breve: O conselho nacional de saúde tem escrito sobre suas normativas defendendo a prática multiprofissional da acupuntura em todo o sistema de saúde público e privado. Eu obtive o link do site da AFB, Associação de Fisioterapeutas do Brasil, que também vale a pena ver, pois trás informações e notícias sobre várias de nossas reinvindicações profissionais. Seguem os links.

 

Abraços! Bom dia do trabalho para todos!

 

http://conselho.saude.gov.br/ultimas_noticias/2012/19_abr_recomendacao_acupuntura.html

 

http://www.afb.org.br

 

 

 

Diagnóstico fisioterapêutico x Diagnóstico médico

Bom dia a todos!

Recentemente, recebi um comentário de uma colega, postado no blog, com um argumento muito significativo em favor da prática multidsiciplinar de acupuntura, um argumento que “quebra” o falacioso argumento da Associação Médica Brasileira de Acupuntura de que é necessário um diagnóstico preciso da doença para que a acupuntura não venha a mascarar um quadro grave e que só médicos podem fazer isso. O argumento da colega, corretíssimo, é que, na maioria dos serviços de saúde brasileiros, seja convênios ou SUS, a consulta de primeira entrada e o encaminhamento para especialidades (inclusive fisioterapia e acupuntura) são feitos por médicos e, portanto, o diagnóstico, teoricamente, já estaria dado. Isso é verdade e derruba mais um argumento espúrio dos médicos  nesta questão.

Por outro lado, abre uma discussão interessantíssima sobre a procedência dos diagnósticos multiprofissionais, qual deve vir primeiro e se é necessário que haja uma ordem entre eles. Para os colegas que acompnaham o blog, minha convicção a esse respeito já deve ser conhecida, mas, como esse é um dos temas mais importantes em nossa área, reproduzo abaixo a resposta que dei à colega, que ela me autorizou a publicar, e na qual pondero exatamente sobre essa questão:

“Cara… , boa tarde:

 Obrigado por sua participação no blog. Já coloquei seu comentário e o considero muito pertinente. Gostaria apenas de fazer um adendo, para reflexão:

 Apesar de concordar que, no Brasil, geralmente avaliamos o paciente após o diagnóstico médico, e que portanto, do ponto de vista da argumentação deles, o diagnóstico seguinte (de acupuntura) seria feito com base no diagnóstico inicial, não defendo que isso seja necessário ou mesmo vantajoso para os pacientes ou para a área de saúde em geral.

 Em muitos países, e o caso da Austrália é particularmente emblemático, o diagnóstico fisioterapêutico não precisa vir depois do diagnóstico médico, porque os diagnósticos são entendidos como formas independentes de se abordar o paciente conforme um ponto de vista particular à profissão, e se considera que a base comum de conhecimentos em saúde de todos os profissionais lhes permite encaminhar e contra-encaminhar os pacientes quando entendem que outro diagnóstico e outra abordagem são requeridos. Fundamentalmente, aqui no Brasil, nós fisioterapeutas em particular temos suficiente conhecimento geral para discernir, à partir do nosso diagnóstico, até onde podemos ir, se podemos resolver o problema do paciente sozinhos ou não. Está em nossa formação.

 Podemos e devemos querer ser autônomos e só não o somos por causa de barragens sociais, muitas delas criadas por nós mesmos na prática de nossa profissão e outras que atendem a interesses poderosos (como o lobby médico por monopólio da acupuntura, por exemplo). Portanto, apesar de entender que seu argumento é corretíssimo e invalida ainda mais o argumento médico a favor de que só eles façam acupuntura, eu não costumo defender ou dizer para meus pacientes que eu “preciso primeiro do diagnóstico médico” para poder atendê-lo. Digo simplesmente que médicos e fisioterapeutas trabalham em conjunto, cada qual com seu diagnóstico. E acho que, um dia, o SUS e os convênios não exigirão mais encaminhamento médico para atendimento de fisioterapia.

 Nos tornarmos profissionais de primeira entrada pode parecer um sonho, ou um horizonte distante, mas não creio que tenha sido fácil para os fisioterapeutas de outros países onde a profissão tem mais autonomia conseguirem o que conseguiram. Se conhecemos a nossa verdade e lutamos por ela, ainda que apenas nas pequenas ações do dia-a-dia, podemos chegar lá.

 Note que não estou dizendo que devemos recusar guias médicas ou atender sem elas. Se a lei ainda é essa, ela deve ser seguida. O que digo é que, no futuro, pode ser diferente, e isso depende de começarmos a explicar às pessoas, pacientemente, como as coisas realmente são e não como a lei faz que elas sejam. Afinal, leis evoluem para acompanhar o progresso, ou não se trata de lei mas simples ditadura de costumes.

 Novamente, obrigado pela participação!

 Abs:

 Alan”